O
Homem Secreto
Luis
Carlos de Morais Junior
Energy is eternal
delight.
William Blake
Prefácio de O Homem Secreto
Lui Morais, o renomado co-autor de Y e os Hippies, escritor de Faetonte, o filósofo de Crisólogo,
Proteu, O Estudante do
Coração e O Olho do Ciclope, o poeta de Larápio e Pindorama,
o autor teatral de Peças leves, e o músico com mais de duzentos e cinquenta
canções compostas, dessa vez foi além do que se esperava, mas não no sentido
positivo.
Seu novo livro, intitulado O homem secreto, é uma novela ou
romance bizarro, que apela para o fantástico e a ficção científica, subgêneros
sabidamente inferiores, característicos da para-literatura.
Ao ler este livro ficamos com a impressão de que levamos uma rasteira,
por baixo, por cima, por trás, por algum outro lugar, ou pelos lados. Tudo ali
está fora do lugar, tudo nos faz parar de pensar, fugir da compreensão, seja
diegética, mimética ou teórica. O homem secreto é um livro que irrita,
reflete e se repete. E repele.
A única coisa que eu gosto nesse livro é o seu título, inesperadamente
inspirado, num autor tão sem graça. Quem é o homem secreto?
Falso livro de detetive, dentro do lugar comum pós-moderno de se utilizar
de subgêneros como pastiche, a nome da obra brincaria com a ideia de falsa
identidade etc. Mas, na verdade, o homem secreto é o escritor; percebam que as
duas palavras são palíndromos.
O escritor é o único artista que projeta o mundo, e se esconde do mundo,
tanto do seu mundo real, aquele no qual passeia e é um homem comum, pelo
incomum de sua criação artística, quanto de seus mundos literários, no comum de
ser mais um, um homem como outro qualquer; os escritores são os verdadeiros
agentes secretos da nossa sociedade.
Por outro lado, o homem secreta alguma coisa, no sentido de uma ação que
ele faz: o segredo, a obra, o tédio, a paixão, o medo, o enredo, são as suas
secreções.
E ainda: o poder oculta, ou algo oculta, no homem, alguma coisa diferente
dele, do que sabe, do que sempre soube, do seu mundo, do que pensa que pensa e
do que pensa que é.
Macaco Peludo
O projeto original era de um romance desmontado chamado
O Homem Secreto e outras mentiras,
que escrevi entre 1981 e 1984. Eram vários contos e até uma peça de teatro, que
se encaixavam de muitas maneiras, produzindo a sensação de histórias longas, um
romance virtual reversível. Tenho o registro dessa obra de 1986, alguma coisa
assim. Mas não consegui publicá-la na época. Os editores demonstravam especial
preconceito para com: 1 - autor desconhecido; 2 - poesia; 3 - contos; 4 -
experimentalismo e 5 - indefinição genérica.
Então, na década de 90, eu transformei O Homem Secreto num romance tradicional,
se bem que pós-moderno, e minhas maiores influências nessa época foram Henry
Miller e Rubem Fonseca. Saiu o que hoje é o romance, contado de uma forma
linear, que eu supus que todo mundo pudesse entender. Depois fiz As Novas Revoluções das Esferas Celestes,
e, com Eliane Colchete, minha esposa, O
Portal do Terceiro Milênio, que se revelam duas continuações inesperadas
daquele.
Resolvi retomar o projeto e inserir o novo Homem Secreto num livro de contos com o
mesmo nome, que recuperava alguns dos originais e incluía novos que fui fazendo
ao longo do tempo. De certa forma, o projeto inicial se restaurava, com duas
metades, o grande conto que apresentava a história na íntegra, e os contos
menores, que eram suas virtualidades (mas “As pílulas de grito do Dr. K.
Britto”, o texto teatral, que constava do Homem
Secreto primitivo, permaneceu junto com outros de seu gênero, no livro Peças Leves, que conta com “A Casa da
Fonte de Águas Vivas”, que é uma outra continuação do Homem Secreto, na qual ele age sob um dos seus pseudônimos.).
Minha mulher insistiu que eu recuperasse o livro
original, e eu o obtive no registro de obras, e reintitulei como “Óbelo”, e ele
se tornou uma das novelas de Linhas de
Força (sem alguns contos e a peça). Ali também as histórias se ligam de
muitas maneiras. Alguns dos contos originais tinham ido para o novo Homem Secreto e não apareceram na novela
recuperada.
A forma romance foi se definindo cada vez mais para
mim, a partir do Homem Secreto, das Revoluções, de Memórias Atuais de Leo Outlander (que é um dos meus tributos ao
memorialismo inventivo de Oswald e Miller, e por que não dizer?, de Proust e
Joyce) e principalmente em Faetonte e
Gigante, onde me senti amadurecendo
no gênero, ganhando corpo e força. Então resolvi tornar O Homem Secreto um romance assumido e mais bem resolvido.
Finalmente a forma ganhava sua máxima comunicação e a história transparecia,
completa, para quem quisesse ver (ler).
Aí ficaram os contos, que um dia já se chamaram A Fúria do Leão, e que tinham do projeto
original a dupla face de serem também montáveis como ângulos de uma longa
história e se comunicarem com os outros livros, pelas problemáticas,
personagens, situações etc. A ideia original se amplificou: todas as histórias
(romances, peças, novelas e contos) se ligam de alguma forma, pode-se montar um
novo gênero a partir da leitura de todas elas. E o livro de contos faz parte
disso. Resolvi dar a ele o nome de MASSAS
VERBAIS, que seria o título de um romance, e se tornou do conto (a história
que ali aparece seria outro romance), e que é o nome de uma técnica micro e
macro, de plasmar e aglutinar massas de signos, palavras, sons e letras,
significados e ícones, como uma forma de música e artes plásticas (esta técnica
é irmã, mas bem diferente, daquela que chamei de “Cinema Invisível”, que era o
nome de um conto, expressão que criei no início dos 80 e que depois vai
aparecer no jornal na década de 90 se referindo a filmes virtuais feitos em
papel por cineastas e escritores, a ideia muito próxima da que eu tivera e
nomeara, e tudo isso vai referido em meu ensaio O Olho do Ciclope; em MASSAS
VERBAIS temos massas de palavras como matéria opaca e densa; em cinema
invisível a linguagem se torna transparente para fazer passar um filme para o
leitor).
Ao escolher o novo nome eu mesmo desfiz o projeto original da dilogia Mundos
Possíveis. Várias foram as arquiteturas desta obra, em alguns casos ela
teria cinco ou mais volumes, às vezes com o mesmo nome de “mundo”, às vezes
variados. Optei por O Homem Secreto porque o título me pareceu muito
mais sugestivo, e pensei ainda em acrescentar a ele: “O poder desconhecido
dentro de cada um”. Aí ponderei que iria ficar parecendo obra de autoajuda, e
decidi tirar o subtítulo, que ainda por cima se fechava em uma única leitura ou
interpretação do significado de O Homem Secreto, que as tem várias.
E é assim que
deve ser entendido o nome geral que dou a este romance cíclico ou painel
pluriversal (ou omniversal): Mundos Possíveis, em homenagem aos meus
filósofos mais caros, Gilles Deleuze, Friedrich Nietzsche, Baruch Espinosa e
Leibniz, e ao escritor que precedeu a todos que tentem doravante tal
investigação, Marcel Proust.
Os volumes de Mundos Possíveis são: Linhas de Força, O Homem
Secreto, As Novas Revoluções das Esferas Celestes, Massas Verbais,
Memórias Atuais de Leo Outlander, Faetonte, Machineman, Gigante, e Arroz, feijão, amor e confusão.
Luis Carlos de Morais Junior : brasileiro : carioca : professor : poeta :
escritor
Contracapa
O Homem Secreto,
quem é ele?
Conhecê-lo e, mais ainda, compreendê-lo, é achar o cidadão
midiatizado, aquele que pode estar à mercê de processos de captura por parte da
mídia eletrônica.
É a marca indelével da sociedade contemporânea exercendo
um controle onde se pode observar a materialização de poderosos instrumentos de
convencimento e de sedução de corpos.
O Homem Secreto,
cuja identidade somos nós, se desnuda neste romance, somando a literatura à
filosofia e criando um estreito relacionamento, que retrata magistralmente as
dimensões do conhecimento humano, caracterizando uma linguagem marcadamente de
questionamentos, possibilitando a exposição do pensamento de forma concreta.
Ambas agora associadas buscam aspectos sólidos de
discussão de vários significados possíveis para questões do homem e sua
filosofia de vida.
O Homem Secreto, somos nós.
Capítulo 1
“Olho pro céu e vejo muito mais coisas ali no escuro desta noite do que
julga tua rápida mirada. Há fanáticos que falam em discos voadores e fantasmas.
Eu não acredito em nada disso. Adotei um pseudônimo para utilizar sob o título
de minhas obras: Lucas Vivaqua.
Sei que essa prática é mais própria aos escritores imaginativos, esses
masturbadores ficcionistas, que só sabem inventar historinhas que contam no
papel. Não os desprezo, porém também não os superestimo, pois bem sei o que
vale a genuína invenção. Pouco importa não ser conhecido nem reconhecido pelo
meu trabalho e pela minha genialidade. Sim, é essa a palavra.
Faz pouco que completei meus trinta e cinco anos, e já consegui
progressos em meus estudos de cibernética que são difíceis de explicar, e que
mal podem ser apreciados por meus colegas coevos.
Eu sei que estou à frente de meu tempo. E daí? Qualquer ser humano está à
frente de seu tempo, pois ele sempre é forçado a viver e responder a realidades
novas, futuras, desconhecidas, a cada segundo. O seu tempo é o segundo passado
em que ele existiu com certeza, e já tomou alguma decisão, e já agiu, ou não
agiu, e já se sabe como foi.
No entanto o tempo em que ele pensa e age é um tempo novo, é futuro,
sobre o qual nem ele nem ninguém sabe absolutamente coisa nenhuma.
Agora suponho que pareço um filósofo. Entrementes não é este o caso, a
filosofia que permanece puramente abstrata atrai-me ainda menos do que as
fantasias dos escritores, pois estes pelo menos projetam algumas estruturas,
nem que sejam linguísticas, ou de eventos narrados.
Os filósofos não projetam nem fazem nada, só teorizam de maneira vã.
Eu sou cientista. Eu mudo o mundo. Eu o projeto.”
Morioni largou a caneta sobre a escrivaninha e fechou o grande caderno.
Para quê estava escrevendo esse diário? Por acaso pensava em dar à luz suas
meditações para-científicas? Tolice, e ele sabia disto. Outrossim, ao mesmo
tempo, sentia a premente necessidade de desabafar... E quem entenderia os seus
problemas? A quem ele poderia confiar os segredos de seus trabalhos
mirabolantes? Quem teria o denso preparo científico para apreciar os dilemas
com os quais se defrontava, e as soluções que lhes dava? Bobagem. Escrevia para
si mesmo, sabia disto, apenas pelo desafogo psicológico, pela satisfação do
mecanismo linguístico de conversar, desabafar com alguém.
Já as suas comunicações científicas e papers teriam outra acolhida, se
ele tivesse a coragem, ou seria melhor dizer, fizesse a temeridade, de dá-los à
publicação.
Porque ele sabia que suas realizações estavam na verdade anos à frente da
ciência oficial da época em que vivia (como muitos outros aspectos seus).
Suspirou, trancou o caderno em uma gaveta da escrivaninha, à chave, e foi
para a biblioteca de sua luxuosa residência.
Adora esta parte: ao puxar um volume encadernado, velho e empoeirado (um
romance com o título de O Homem Secreto,
e que o intrigava, sempre pensava em escrever um estudo sobre o nome da obra,
afinal, quem ou o quê era o “homem secreto”?), toda uma parede se afasta, e ele
adentra na ala secreta de sua mansão, o seu laboratório oculto (havia também um
outro “oficial”, que ficava no prédio atrás da casa, onde ele desenvolvia
pesquisas anódinas ou quase [pois às vezes realizava ali estudos parciais que
por si só nada pareciam significar, e que ganhavam importância crucial se
“encaixados” a outras pesquisas, maiores e mais abrangentes, dentro das quais
eles adquiriam nova dimensão], e um observatório astronômico “de quintal”, ao
lado daquele).
Seu mordomo Bário (que era o único que tinha livre acesso e conhecimento
do laboratório secreto, e em quem Lucas tinha total confiança, pois ele já
trabalhava para seu pai e cuidava do cientista desde quando este era criança)
entrou com um lanche reforçado.
Morioni sorriu e disse que não tinha fome, estava debruçado sobre o
computador, fazendo uma série infindável de cálculos (as pesquisas admitidas ou
toleradas, e remuneradas de alguma forma, têm que obedecer aos desejos de uma
sociedade bovina, vacum, onde o povo é totalmente manipulado pelos meios de
comunicação de massa e vive nas mais crassas e absolutas ignorância e
imbecilidade, e que tem em seus próceres sujeitos reacionários e não muito mais
profundos do que o seu rebanho, e cujas instituições de pesquisa estão
comprometidas com este estado de coisas, com o senso comum, os interesses da
massa e da elite e ditames burocráticos ou que tais alheios ao verdadeiro
espírito científico).
Não obstante, Bário insistiu, até fazer com que o seu patrão comesse
alguma coisa.
Depois passeia pela pequena e aprazível cidade serrana, calmamente; ali
todos o conhecem como Dr. Evilásio, um médico bem-sucedido e aposentado, apesar
de ele ser tão novo ainda, as roupas que usa e a sua circunspecção ajudam a
compor a personagem.
Às vezes vem gente que o procura necessitando de seus serviços
profissionais, que ele evita ao máximo, porém, se a insistência ou a
necessidade for muita, ele ajuda, raramente cobrando honorários, apenas no caso
em que a situação financeira amplamente privilegiada do cliente faria despertar
suspeitas, caso ele não o fizesse.
Gosta também de passear pelo centro da Cidade de São Sebastião do Rio de
Janeiro, onde ele é mais ignorado ainda, sentindo-se prazerosamente como o
homem invisível.
Vivendo na década de setenta a ditadura militar que barbariza a população
do Brasil (e cujos efeitos deletérios se fariam sentir ao longo das décadas
seguintes), Morioni adotou nome falso e sumiu de circulação, não por causa de
questões políticas, que essa politicalha miúda dos partidos nada lhe diz, nem
ele a ela, mas, sim, por causa da repressão mais fina (de caráter acadêmico,
social, moral, judicial etc.) às suas importantíssimas pesquisas que deveriam,
isso sim, ser financiadas e apoiadas pelo governo.
Sente-se como se vivendo em plena idade média.
O que todos esses cientistas (supostamente) éticos que o condenam esperam
conseguir, que a ciência fique estacionada em um estágio por eles determinado?
E os médicos que caçaram o seu registro, o que pensam? Que a ciência e a
pesquisa podem se desenvolver apenas com teorias e cobaias animais?
Morioni é brasileiro, filho de fazendeiro do interior de Minas Gerais
(neto de italianos) e de uma dona de casa (filha de índios). Aos quinze anos,
veio estudar no Rio de Janeiro, onde fez duas faculdades simultâneas, medicina
e física.
Aos vinte e três anos já estava formado em ambas, e recebeu uma grande
parcela da herança que lhe cabia. Nunca mais procurou pelos conhecidos de sua
cidade natal. Aos vinte e cinco já era médico renomado e professor
universitário, função na qual sua genialidade começou a se fazer notar e a
incomodar os colegas invejosos. Principalmente o que despertava o seu ciúme era
a universalidade dos interesses intelectuais do jovem cientista.
Foi por essa época que começou a trabalhar com engenharia genética e
clonagem, obtendo resultados muito promissores. No resto do mundo as mesmas
pesquisas ainda engatinhavam, ele estava bem mais adiantado, e chegaria a
resultados práticos antes de todos os concorrentes.
Todavia foi descoberto.
Na época quase ninguém sabia direito do que se tratava, porém alguns
poucos pesquisadores informaram ao governo que eram pesquisas anti-humanistas,
de controle absoluto sobre as criaturas, no estilo de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley.
Falou-se até mesmo em eugenia e fascismo, o que muito o irritou, pois ele
tinha verdadeira aversão ao racismo e ao nazismo.
Eram esses mesmos que se submetiam a tudo que fosse europeu ou ianque,
que vibravam com as insignificantes vitórias da seleção brasileira de futebol
(ou outro esporte qualquer), e cortavam as verbas de pesquisa nacional,
deixando assim que toda a biodiversidade da flora e da fauna brasileiras (que
só na floresta amazônica é muitas vezes maior do que em todo o resto do mundo)
seja roubada ao bel prazer das empresas e governos estrangeiros, como se
fôssemos uma cambada de débeis mentais, que ainda por cima depois compramos
produtos desses países, desenvolvidos com a tecnologia biológica (e a matéria
prima e os recursos e a energia e a mão de obra e a inteligência etc. ad
nauseam) daqui pirateada, tudo em prol de um neocolonialismo e de um modo de
vida e produção deletérios.
Morioni iria ver divertido (em parte) a primária experiência de produção
de um clone de ovelha ser realizada na Escócia em 1996, mais de vinte anos
depois de ele obter resultados muito mais completos, e de ter sido perseguido
por isso, em seu próprio país.
Veria também que a loucura humana ia ao ponto de quase todos os países
realizarem imediatamente legislações que proibiam e penalizavam a clonagem
humana.
No momento nada disso o interessa mais. Seus trabalhos estavam muito além
de algo tão simples e tão secreto, o clone humano que ele realizara com sucesso
a partir de si mesmo.
Morioni passeia a pé pelo caminho florido da Serra de Petrópolis,
deslumbrado com a magnífica vegetação, milagrosamente ali conservada.
Capítulo 2
“Você já percebeu que as pessoas novas que surgem parecem que foram
fabricadas, projetadas? Elas semelham misturas de pequenas partes de outras
pessoas, pedaços de coisas, paisagens, animais, sentimentos; seus corpos
dão-nos a sensação de serem compósitos, quase como que se retalhos fossem
montados ao acaso.”
Frederico olhava para o chão, já arrependido de ter vindo ver o amigo.
Gostava muito de Ezequiel, mas essas suas ideias descabidas eram muito difíceis
de suportar.
“Você nota isso claramente nos artistas novos que aparecem. E não me
refiro a imitação, emulação, qualquer coisa assim; se você reparar bem neles
vai ver que são como bonecos de madeira ou de alguma outra matéria mais ou
menos passiva que aceita ser uma salada das feições de muitos outros que os
precederam. É óbvio que isso acontece com todos, artistas ou não. Mas quando os
sujeitos estão em evidência o truque é berrante. É angustiante.”
Frederico ouvia pacientemente. Daqui a pouco iria interferir, responder,
argumentar: que não era nada disso, que a impressão de montagem vinha de nossa
percepção ou de nossa tendência intelectual para a generalização, essas
bobagens assim. Tentava aliviar o outro, porque gostava dele, mas sabia que
Ezequiel era do tipo de cara que nada conhecido alivia.
“Se você investigar vai descobrir que toda pessoa é um animal. Sim, é
claro, nós somos animais, ninguém nunca duvidou disso. Os antigos, os medievais
que queimavam aqueles que se deixavam dominar pela sua metade besta, e
marginalizavam aqueles santos que se enchiam da sua metade anjo, os
capitalistas que espremem suco de pessoas nas fábricas, os regimes autoritários
e os regimes de consumo compulsório que fazem com crianças o que nenhum Pavlov
teria a coragem de fazer com o mais reles vira-latas, todo mundo sempre soube e
agiu de acordo: somos animais.
“O que eu percebi e que vai além disso é que cada criatura, em sendo um
caleidoscópio frankensteiniano de pedaços de outros seres precedentes ou por
vir, cada um é também um bicho qualquer encarcerado em um ser humano. Todos.
Alguns parecem ser, outros não tão na cara assim, mas todos são bichos, almas
de feras ou de alimárias, almas baixas e materiais, presas na matéria. Um tanto
diferente da concepção medieval, ein. Almas de besta, cheias de apetites e
paixões, enfiadas por dentro de corpos de matéria passiva, de carne que luta
por descansar, por se acalmar, por encontrar a sabedoria e a felicidade.
“Corpos filosóficos e religiosos, almas dionisíacas, satíricas, priápicas,
procurando por vícios; almas diabólicas encarceradas em corpos divinos. Esses
somos nós.”
Agora o magricela pequenote já não estava prestando tanta atenção ao que
dizia aquele seu companheiro gordo e grandalhão, bruto, agressivo e brilhante,
a cabeça ainda raspada da última “interação” (como ele chamava) - e disseram
que ele tinha voltado melhor!
Frederico já não acompanhava a linha do raciocínio delirante, e observava
as lombadas e capas dos livros caoticamente espalhados por toda parte no
quarto, enquanto seu interlocutor andava de um lado para o outro como uma fera
na jaula, gesticulando, pulando, gritando: dava a impressão de que, a qualquer
momento, ele iria pular no pescoço de alguém.
“Você deve ser um leão.”
Ezequiel voltou-lhe seu olho vermelho e riu com vontade.
“Você é um leão na jaula, Frederico. Eu sou um urso. Os ursos são
animais terríveis, traiçoeiros e totalmente agressivos, muito mais ferozes do
que um tigre ou um leão. Nós somos feras em homens. Isso é duro. Mas pior é que
nós vivemos em uma sociedade de porcos.”
Livros de todo o tipo, de todas as matérias, ciência, literatura e
filosofia. Livros de religião. Alguns rasgados com fúria. Outros ordenados na
estante. Em uma cesta de lixo havia muitas e muitas bolas de papel amassado, ou
pedacinhos de folhas rasgadas. Sobre a escrivaninha, outras tantas páginas
escritas de alto a baixo, em letra pequena e ilegível.
“O que você está escrevendo?”
“Um livro. É muito importante.”
“Que livro?”
“É um livro só. Eu tenho vinte e quatro anos, como você deve saber, e
escrevo desde os catorze. Quer dizer, guardo coisas escritas por mim desde essa
idade - eu sempre escrevi, mesmo antes de aprender a ler e a escrever
'oficialmente'. Há dez anos que faço este livro sem fim.”
Paciência, olha pro céu, olha pro chão, olha prà cara do teu amigo,
Frederico, tenta entender as pessoas.
“E como é o nome do livro?”
“Livro.”
“Tipo Mallarmé?”
“Tipo nada. É um livro chamado Livro.”
“E de que trata? É ensaio, romance ou outra coisa?”
“Outra coisa.”
Paciência.
Sabia que Ezequiel escrevia muito, eles foram colegas no Colégio de
Aplicação (que, naquela época, ficava à Rua do Bispo), e o czar (era assim que
ele e outros chamavam Ezequiel) era genial, ou relapso, dependia do dia. Suas
redações eram muito elogiadas. Ele debochava dos professores, chamava todo
mundo de burro, lia coisas sem sentido para Frederico e Ismênio.
“Por onde anda Ismênio?”
“Na rede.”
“Você o tem visto?”
“Ismênio é um periférico, desde criança, e você deve saber, caiu na rede
é peixe, então eu tô fora. Cada macaco no seu galho, sacou?”
Ou cada urso na sua caverna, pensou mas não falou dos dois o mais ou
menos mais normal.
“E qual é o seu?”
“Eu vivo.”
“Você é escritor? É filósofo?”
“Eu sou eu.”
Difícil. Começou a pensar em ir embora, aquele cara estava cada vez mais
intolerável.
“Lembra que a gente te chamava de czar?”
“Hm.”
“E o curso de russo?”
“Larguei. Bobeira.”
Pra ele tudo era bobeira. Tomou um gole de chá de camomila que a mãe de
Ezequiel trouxera com broa de milho pra eles. Tudo muito calmante, menos a
presença daquele filho grandalhão e doido, pouco afeito a convenções.
“O que você pretende fazer agora?”
“Tá na hora de você ir embora, Frederico.”
“Que é isso? Tá me mandando embora, czar?”
“Tua mãe deve ter feito ensopadinho pra você. Não tá com fome?”
“Ezequiel, eu estou comendo broa que tua mãe me deu!”
“A sua garotinha deve estar ansiosa pra te ver... como é mesmo o nome
dela?”
“Cirila.”
“Então. Vai comer a Cirila. Você é um leão mesmo, tem sempre que estar
comendo algo, ou alguém. Vai que ela deve estar ansiosa.”
Frederico meio se chateou, mas, diabo, gostava daquele bobo, não ia cair
no alçapão da briga assim mole, mesmo porque quando o czar brigava era pra
sempre.
“Cê tá trabalhando?”
Ezequiel sentou-se na cama, meio emburrado.
“Eu não quero falar sobre isso.”
Bebeu todo o chá de um só gole.
“Zequinha...”
“Não me chame assim!”
“Desculpe. Czar, você é um cara brilhante. Inteligente pra caramba.
Forte, alto, simpático. Você só tem vinte e quatro anos. Qual é o problema?”
“Nenhum. Tudo está perfeito. O mundo todo está em ordem.”
“Quem somos nós para dizer o que seria melhor para o mundo e para as
pessoas?”
“Epoché, apatia filosófica, estoicismo, sei.”
“Por falar nisso, sem querer ser chato, e a sua faculdade de filosofia?”
“Não tenho nenhuma faculdade. Quem faz salsicha é o José de Alencar.”
“Outro grande talento desperdiçado. Parou de estudar, se amasiou com
aquela idiota, e fica trabalhando todo santo dia, oito horas por dia, na
fábrica de salsicha.”
“E você com sua faculdadezinha de merda está muito melhor? Ora, vá se
catar, Frederico Guilherme!”
“Que história é essa de Frederico Guilherme?”
“Homenagem ao Nietzsche. Fred, aquela nossa turma de aplicados só deu
loucos. Você escravo de uma lambisgóia, agarrado à saia dela e da sua mãe,
perdendo tempo na salsicharia epistemológica. Faz letras! Isso é ridículo! Você
nem sabe ler hebraico, nem grego, nem latim! Você é analfabeto!”
“Eu faço Português-Literatura.”
“Nem sânscrito você lê! Charlatão!
“O Ismênio fica com seus olhos de zumbi, hipnotizado por essa sub-espécie
de televisão que não fala, computa. E o José de Alencar criando chifre e
barriga com sua mulherzinha vulgar, trabalhando de sol a sol em uma coisa de
que ele não gosta.
“Vocês são todos loucos.
“Vocês são todos iguais.”
“E só você é normal?”, e Frederico se arrependeu no exato instante em que
falava, a ironia flagrante no tom e no jeito.
“Você tá ficando igual a eles.”
“Eles quem?”
“Meus pais, seus pais, os pais deles e delas, eles e elas, todo mundo.”
Frederico se sentia cada vez mais desconfortável. Olhou prà xícara azul,
viu algo pequeno como uma formiga que boiava no chá, e tomou todo o líquido até
o fim. Resolveu ir embora.
“Acho que tá na hora de chegar.”
“Eu sou normal, sim. Há outros, poucos, pois é muito difícil manter a
sanidade dentro destas engrenagens em que estamos.”
“Você lembra que a gente ia escrever um livro juntos, nós três?”
“Besteiras de criança.”
Frederico se levantou. Não sabia direito como fechar a estranha porém boa
conversa.
Sabia que seu amigo estava certo, que tudo que ele dizia fazia muito
sentido, ele não era nem um pouco louco, na verdade (uma rara exceção!).
Mas não sabia como absolvê-lo da sua solidão monolítica.
“Bom trabalho aí com o seu Livro.”
“É outra besteira. Tudo é besteira.”
“Bom, tchau. Depois te ligo.”
Encaminhou-se prà porta do quarto, mas o outro o agarrou com braços
poderosos, apertando doloridamente seus ombros, e sussurrando:
“Tem alguma coisa muito estranha acontecendo. Eu preciso falar com você.
Mas não hoje. Chama o Ismênio e o José de Alencar e vem com eles dois aqui.
Semana que vem, de noite. Na hora da novela. Agora vai.”
Capítulo 3
Lua está deitada ouvindo música, vestida só de camiseta e de calcinha;
Nadine entra no quarto, enrolada na toalha, cantarola a música que Lua está
ouvindo; Lua abre os olhos e observa com carinho, enquanto Nadine veste uma
calcinha e um camisão, por sua vez.
- Vamos ver tv.
- Tv?
- A novela...
- Blergh!!!
Nadine senta-se ao lado da namorada na cama e as duas dão um longo beijo.
- Apaga essa luz...
Aumentam o volume do som, desligam a luz geral, acedem um abajur e tiram
as roupas, rápidas.
Quem foi que disse que sereia não tem sexo?
A mão bate com os nós dos dedos na porta, assustando as duas meninas,
empatando a foda. A mãe de Nadine grita (nervosa) do lado de fora:
- Nadine, o que vocês estão fazendo trancadas nesse quarto???
- Ouvindo música, mãe - controlando-se.
Abre essa porta! Alarme, vestir roupas até que é instantâneo, mudar o
cenário, jogar uma colcha sobre a cama, uma saia comprida sobre a marca de
mordida sangrada na coxa de Nadine, e um cachecol (com esse calorão) sobre o
chupão no pescoço de Lua (o nome dela é Laura Amélia, mas a Nadine sempre a
chama de Lua, e ela só gosta que a Nadine a chame assim). E o que fazer com o
cheiro excitando todo o ar?
Acende um incenso! Bom-ar que é um spray, abre a janela na noite quente
gozosa, a lua cheia invade a penumbra do quarto com sua luz de sonho.
Desliga o abajur e liga a luz!
- Por que demorou tanto? O que vocês estavam fazendo?
- Estudando, mãe.
- A gente ia ligar a tv agora pra ver a novela, dona Maura.
- Laura Amélia, sua mãe sabe que você tem dormido aqui em casa?
- Ela sabe sim, ela acha super legal eu ter uma amiga com quem possa
conversar, estudar, que me compreende. Ela diz que é bom não se sentir sozinha,
principalmente nesta idade da gente.
- É verdade.
Lua liga a tv e senta na frente dela obediente, Nadine desliga o som alto
(chamariz da mãe), Maura fica olhando suspeitosa.
- Nadine, vem na cozinha um instantinho. Dá licença, Laura Amélia.
Uma olhou com alarme prà outra. Take it easy, vamos ter calma, baby.
Maura fechou a porta da cozinha, sentou-se e fez a filha se sentar
também. Falou que ela precisava confiar na mãe, que uma tinha que ser amiga da
outra, que a maior amiga que uma moça pode ter é a sua própria mãe, que ela era
compreensiva e poderia ajudá-la, que essa era a sua preocupação, ajudá-la.
Nadine ficou vermelha, sentiu as orelhas em fogo, por que diabos eu tenho
tanta vergonha de gostar de menina? Qualé? E resolveu assumir, contar tudo prà
mãe.
- Minha filhinha, você está usando drogas?
- Droga? Que drogas?
- Eu senti um cheiro esquisito no seu quarto, vocês estavam cheirando
maconha?
Nadine respirou aliviada e tentou disfarçar o alívio, não dar mais
bandeira ainda, e explicou pacientemente (e feliz toda vida):
- Mãe, eu te juro que nem eu nem a Lua fumamos nada. O cheiro que você
sentiu é de incenso, uma espécie de perfume do ar, mas totalmente inofensivo.
- É aqueles pauzinhos que os Hare Krishna vendem nos ônibus?
- É isso mesmo. Todo
mundo usa.
- E esse negócio não é tóxico?
- Não, mãe, eu garanto pra você.
O charme da suave marginalidade.
O pai veio comer pastelão e entrou na conversa e garantiu à esposa que
incenso tudo bem, barra limpa, deixa as meninas, o pai adorava a Nadine, sua
filha única, e também simpatizava demais com a Laura Amélia.
Ao voltar pro quarto encontrou a Lua comendo as unhas.
- Calma, menina, ela não sentiu o cheirinho de... amor. Ela só farejou o
incenso, e surtou que era Maria Joana.
- Quem dera...
E o resto da noite foi beleza, elas na delas, vendo e ouvindo sem prestar
atenção as bobeiras da tv, fazendo amor a noite toda, até o cansaço chegar e
elas dormirem abraçadas.
Capítulo 4
Fim de milênio e as pessoas estão cada vez mais estúpidas, neste e nos
outros países. Faliram todas as crenças, e quase todas as estruturas sociais
têm crápulas como dirigentes e como figuras importantes. As pessoas não sabem
mais se gostar, só querem se usar umas às outras, e ninguém mais dá valor ao
ser humano, à cultura e a tudo o que realmente importa. O que é um
relacionamento afetivo? Sexo. E quando o sexo cansa, porque o sexo cansa e
gasta, aí não sobra nada, e as pessoas ficam juntas se odiando, e começam a se
trair, a se bater, a se destruir mutuamente, ou trocam-se umas às outras,
descartáveis como copos, roupas, camisinhas, casas, carros e pensamentos.
Veja o caso de José de Alencar, o nosso ex-colega do colégio de
Aplicação, e sua cara-metade Iracema (curiosa coincidência, mas a vida às vezes
gosta de ser estapafúrdia, às vezes lírica, às vezes prosaica etc.), que vivem
alternando cio com traições e porradas.
Veja o caso de Ismênio e de Ezequiel, também condiscípulos contemporâneos
meus na mesma escola; eles vivem sozinhos, tanto um quanto o outro, não querem
e/ou não conseguem ter namorada, companheira, amante, esposa, qualquer coisa
assim, uma mulher do lado, alguém em quem depositar esperança, confiança,
carinho.
E nós ainda tentamos cultivar as nossas amizades, somos meio que únicos
nisto. Todo o resto de meus colegas do secundário, do clube, das ruas, sumiram,
incógnitos como os passantes que da janela deste ônibus avisto velozes irem
sumindo pela noite.
Eu e Cirila... o que será? Já começo a sentir dúvidas. Mas há algo nela
que me atrai, quando fico incerto, e ela me parece uma pessoa qualquer
totalmente desconhecida, ou até um ser alienígena que nada fala aos meus
instintos, feito de uma matéria ignorada e insossa, e pede que lhe diga que a
amo, e me olha com medo e ansiedade esperando pela resposta, que ela sente no
fundo que no fundo é só um caos emocional; eu tiro sua roupa, e olho sua
vagina, e começo a me esfregar nela com prazer, e posso dizer que a amo, que a
amo sim, que a amo muito, muito mesmo. Depois, cansado, volta a dúvida, e me dá
vontade de sair na mesma hora, de estar em algum outro lugar.
Assim pensava Frederico no ônibus que tomou perto da casa de Ezequiel
Mongóis, que ficava na Vila das Famílias, um subúrbio distante.
Agora ele estava indo para a URCE, a Universidade Racional Campos
Elísios, onde cursava de noite a faculdade de letras. A viagem era longa e os
caminhos feios e mal iluminados. Então ele se retirou pro seu interior e ficou
pensando, primeiro nas coisas que o amigo lhe dissera, segundo no que seria o
tal mistério sobre o qual gostaria de falar a ele e aos outros amigos no
próximo encontro, terceiro as coisas já citadas, quarto que Cirila parecia uma
cachorra, aquela vizinha, uma ave pequena, o amigo Pancrácio deveria ser um
mico, e o seu impressionante professor de Filosofia, de cabelos e barbas longos
e grisalhos, ar quixotesco, e inteligência arguta e polêmica, sempre
surpreendente, com os olhos brilhantes e infantis, cheio de prazer de pensar e
de fazer pensar, ele tinha a palavra “lobo” no nome, e era realmente um
lobo enorme e feroz!
Quinto: lembrou deles quatro aos quinze anos de idade, quando se
conheceram, e fizeram o pacto. É preciso explicar, só o Ismênio fez pacto com o
demônio, se é que falava a verdade, o que sempre garantiu fazer, em relação a
isto. O pacto dos quatro foi de nunca deixarem de ser amigos e de se ver. Os
quatro rapazes da Rua do Bispo.
Chegaram a fazer um show de brincadeira, no final do último ano, em que
todos fizeram alguma palhaçada, como parte das comemorações pela conclusão do
curso.
Levaram semanas ensaiando, tentando atingir a perfeição.
Cada um deles realmente tocou o instrumento, não fizeram dublagem, foi
tudo ao vivo mesmo. Ismênio na bateria (medíocre, mas correto), foi Ringo
Starr. Ezequiel na guitarra solo (sons loucos, viajantes) era George Harrison.
José de Alencar foi um Paul McCartney gordo e baixo, fingindo que tocava o dito
cujo (bem ao reverso do modelo, alto, elegante e exímio instrumentista). E
Frederico com seus oclinhos de aros redondos metálicos e a enorme cabeleira
lisa e castanha que usava na época ficou sendo John Lennon, cuja cópia só
arranhava um violão.
“She loves you”, “If I
fell”, “Revolution” e “All my loving”. A coragem, melhor dizer
temeridade, e o sentimental da coisa, garantiram o maior sucesso do show.
Lembrou também de muitas outras aventuras que tiveram juntos, além de
serem os Beatles por um dia.
Inventaram uma língua. Quer dizer, o Ismênio o fez, e os outros
aprenderam um pouco daquela algaravia, com a qual adoravam conversar na frente dos
outros, deixando a todos aturdidos pelo eterno indecifrável enigma.
Pois ninguém nunca conseguiu determinar qual idioma falavam.
Foi Ezequiel quem sugeriu que Ismênio inventasse um sistema de sinais
não-verbais que eles usariam durante as aulas, as provas, no ônibus, nas
festas, quando quisessem. Este era um código constituído de tosses, espirros,
batidas de pé, tapas, pigarros, e outros sons malucos, até arrotos (havia um
peido também, mas José de Alencar conseguiu convencer a todos que era inviável,
por ser uma manifestação involuntária e histriônica demais, e que foi por isto
substituído por uma crise de soluços, também risível, mas de falsificação
praticável), e que foi usado durante anos para colas escolares e para caçoar
dos outros, sem nunca ter sido descoberto por ninguém.
Não lembrava quem tinha criado o apelido de czar, parecia algo nascido
por geração espontânea, uma criação coletiva: todos respeitavam e temiam
Ezequiel, e era muito difícil não sentir vontade de obedecê-lo. Ele fascinava
as meninas, e namorou as mais belas da época.
Talvez a mais escandalosa proeza do quarteto tenha sido colocar na caixa
de água da escola um composto químico fabricado por José de Alencar, que ficava
incolor na água, mas coloria a pele e a mucosa humanas de um azul profundo.
Naquele dia houve pânico, bombeiros, polícia, médicos, imprensa. O composto era
inofensivo, mas eles foram descobertos, ameaçados de expulsão, suspensos,
ouviram vários esporros etc. e tal.
E outras histórias, como naquela vez em que se perderam na floresta da
Tijuca com quatro garotas, ou na vez em que fizeram um torneio pra ver quem
conseguia namorar a Claudete Grant, uma loura fenomenal, com olhos de um azul
parecido com o do composto de José, radical e denso.
Frederico decidiu saltar e pegar outro ônibus, agora na direção da Gávea,
onde morava, sozinho em seu apartamento high tec, o seu afortunado baterista
Ringo Starr.
Era meio tarde da noite quando chegou lá, mas o Ismênio sempre foi
notívago. Frederico tocou a campainha com insistência, por uns dez minutos, e
já pensava em voltar pela longa e sinuosa estrada, quando finalmente o outro
atendeu.
Explicou que estava conectado com o dreammer e o computador, ao mesmo
tempo, vivendo experiências psicodélicas em realidade virtual. Ofereceu-as ao outro,
que até tinha curiosidade sobre esses onirificadores cibernéticos, mas
precisava conversar, não sabia direito sobre o quê, é que a conversa hoje mais
cedo de tarde com o Ezequiel fora como agulhadas, e ele precisava... falar.
Capítulo 5
Laio esperou muito tempo, começou a chover, os postes da iluminação
pública se acenderam, as ruas foram ficando desertas. Estava frio, a roupa
molhada da chuva miúda e persistente, fome e sede, vontade de ir ao banheiro.
Mas Pato Doido tinha dito que esperasse ali, que logo ele voltaria com a
informação. E Laio esperou.
Até ver a moto velha e barulhenta voltando, no silêncio bem comportado da
noite na Vila das Famílias. Era ali mesmo que o negro hippie, cabeleira
selvagem, roupas coloridas, colares no pescoço, era ali mesmo que ele fazia
avião de todo o tipo de drogas, mas pros amigos mais chegados, só pra quem
confiava.
Pato Doido tinha idade indefinida, mas não era nenhum garotinho. Fora
preso várias vezes por vadiagem, depois fora solto. Nada de grave; ele não era
um criminoso, não roubava, por exemplo.
Fazia artesanato, vendia nas feiras, consertava tudo, pedia dinheiro,
arranjava encontros, dizem que de graça, e droga a preços razoáveis, mas tão
somente para os amigos.
Laio era negro como o outro.
Criado por uma tia branca que morava ali, não tinha mais ninguém.
Trabalhava de boy num escritório de representações, fazia o supletivo de noite
em uma escola do governo, já tinha tido alguns casos, não tinha namorada. Não
sabia o que faria da vida, se achava feio, pobre, tinha vergonha de morar
naquela vila suburbana.
Um dia conheceu Sofia, na igreja. A moça simpatizou com ele e lhe deu
livros, discos, pequenos serviços pelos quais pagava muito bem.
Sofia era ruiva e morava em uma casa com piscina e um viveiro de
pássaros, que tinha até duas araras que berravam.
Ela riu na cara dele quando ele lhe declarou amor.
No outro dia, a empregada atendeu-o à porta dizendo que Sofia tinha
viajado; e ela estava em casa, ele sabia.
Laio procurou o Pato Doido na qualidade de quebra-galho profissional e
cupido amador. Mas ao saber do caso o cara rira também, meu chapinha, tu tá
querendo demais, qualé.
Laio insistiu, insistiu.
Pato ligou a moto e zuniu, lançando um jato de fumaça negra no rosto de
Laio.
Hoje, mais cedo, encontrou de novo o motoqueiro underground no bar da
esquina.
“Pato, você conhece alguma mágica de amor?”
“Conheço afrodisíaco, um monte. Mas só adianta se a mulher estiver
minimamente interessada em você, senão, você lhe dá a droga e ela vai dar pra
outro.”
“Pato, você conhece algum feiticeiro que conheça mágicas de amor?”
O doido olhou em volta, fez cara
de quem pede discrição, ficou bebendo cerveja sem falar. Depois de uma meia
hora, quando Laio pensou que ele já tivesse esquecido a pergunta, Pato Doido
disse:
“Vem, vamos sair daqui. Vem ver a minha moto.”
Sozinhos na esquina, falou com os lábios roçando a orelha de Laio:
“Conheço. Mas é um sujeito muito esquisito, que se esconde de todo mundo,
que cada dia está de um jeito, que não gosta de ver ninguém. Me espera aqui.”
Uma hora depois voltava, dizendo:
“Você hoje está com sorte, ele aceitou te ajudar. Mas tem que ser agora,
e você tem que pagar duzentos e dez reais adiantados, cento e noventa pra ele,
e vinte pra mim. Agora. Vai querer?”
Laio pediu que o alcoviteiro esperasse dez minutos.
“Cinco. Depois eu me mando.”
Laio correu, entrou em casa, a tia vendo tv perguntou o que foi meu
filho, ele disse tô com pressa, depois eu falo, foi correndo ao banheiro,
mijar, seu coração batendo disparado, fazendo sua vista latejar, ouvia as
pulsações nos ouvidos. A urina saindo lentamente, e ele apressado. Depois
correu até a cozinha, abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e bebeu um
longo gole do gargalo. Largou a garrafa sobre a mesa, subiu em uma cadeira,
abriu um armário alto, tirou de dentro dele uma lata na qual estava escrito
“Farinha”, abriu-a, pegou no seu interior os duzentos e dez reais, que era
justamente o dinheiro do aluguel. Pensou num relâmpago que a tia iria
perdoá-lo, ele não tinha culpa, sua paixão era maior do que tudo.
Chegou na esquina exatamente a tempo de pular para a garupa da moto de
Pato Doido, que arrancava alucinado, sem olhar para trás.
O casebre do feiticeiro ficava em um morro que Laio não conhecia nem
sabia exatamente onde ficava, num subúrbio muito afastado.
Era preciso passar por uma favela e continuar subindo, entrar no meio do
mato, quase floresta, e lá, totalmente oculto, se encontrava o barraco.
Pato abriu a porta sem bater e os dois entraram.
A sala estava iluminada por um lampião.
O feiticeiro, que era preto também, como eles dois, parecia ter quase
três metros de altura, na semi-obscuridade de sua sala, de pé, olhando pela
janela. Virou-se e encarou-os assim que eles entraram.
“É este o Dom Juan?”
“Está fissurado. A mulher é loura e rica. Eu disse que não dava.”
“Ruiva. O nome dela é Sofia.”
“Dá sim. Dá.”
Ficou um tempão fixando os olhos de Laio, como se perscrutasse o seu
interior.
“Mas tudo tem o seu preço.”
Laio puxou o maço de cédulas.
“Larga essa merda na mesa. Você tem que dar um pagamento maior.”
Laio colocou o dinheiro em cima de uma mesa a um canto, de onde Pato
Doido foi tirar seus vinte. O bruxo nem olhou.
“Meu nome é Vulcão Lunático.”
“Meu nome é Laio.”
Vulcão ria um riso enigmático, com enormes e alvíssimos dentes.
“Você pode ir embora.”
Sem dizer palavra, Pato Doido saiu pela porta, quase correndo. Laio tinha
certeza de que ele pegaria a moto no sopé do morro e voltaria para casa,
deixando-o lá. Sentiu uma onda palpável de medo que veio, envolveu-o e passou,
enquanto Vulcão continuava a olhá-lo com fixidez.
“Laio, preste atenção. Vou te dar uma bebida. Você vai se ver em um lugar
estranho. Não fuja, não olhe pra trás, não morra de medo. Ande até encontrar
uma planta grande assim, de folhas miúdas e florzinha cor-de-rosa. É a erva
edagônita. Colha folhas e flores, e coloque-as neste saco. Elas queimam, você
aguenta a dor. Continue andando. Verá um lago de águas negras. Tire a roupa,
mergulhe. Será atacado por uma criatura das águas, assim do seu tamanho. É o
kriniu rgatiniok, um monstro meio humano, que morde e unha como se seus dentes
e unhas fossem facas. Lute, vença-o, bata no alto de sua cabeça, onde ele tem
uma espécie de galo na testa. Bata, que ele não suportará a dor.
“Quando ele desmaiar, arraste-o para fora da água. Enfie esta faca em seu
peito, e depois corte a bola que ele tem na cabeça. Coloque-a neste saco.
Vista-se, continue andando. Encontrará pedras cercadas por uma água fervente. É
ácido. Caminhe sobre as pedras, até uma gruta: entre nela. Há cobras venenosas
ali. Cuidado. No fundo da gruta há uma fonte que mana um fiozinho de líquido.
Encha este frasco com o líquido, que tem por nome ‘pasturo’. Fuja dali o mais
rápido que puder, masque esta folha, e voltará para cá.
“Se me trouxer os três itens eu lhe darei Sofia. Você pode se machucar,
se ferir gravemente, se aleijar ou morrer. Se viver, terá sua mulher. Este é o
trato. Se não quiser, vá embora agora.”
Laio não sentia mais medo. Era tudo tão ridículo, uma história da
carochinha. Mas faria tudo que o estranho homem quisesse, na esperança de ter
Sofia em seus braços.
“Farei o que você quer.”
“Tome isto.”
Laio pegou o copo sujo com um líquido marrom e bebeu com determinação.
Enquanto tudo a sua volta sumia, ainda ouviu a voz rouca de Vulcão Lunático
dizendo:
“Atenção, Laio. Tudo é real.”
Capítulo 6
Depois que Frederico saiu, Ezequiel ligou o rádio, apagou a luz, deitou
na cama e ficou pensando em Nadine.
Sabia que era bobeira pensar nela. Aquilo nunca iria dar certo, ela não
suportava homem em geral e ele em particular. E sabia ainda que havia o caso do
Doutor Morioni, um desafio tremendo, um risco para ele e para todos; e que ele
precisava de toda a energia e concentração que pudesse obter. Precisava evitar
novas interações, pois enquanto estivesse na casa de pseudo-saúde, Morioni
estaria livre e solto para perpetrar qualquer absurdo que quisesse, e todos os
outros estariam indefesos, ignorantes, imbecis, alienados, idiotizados
eternamente, como carneiros.
Apesar de tudo isso a imagem de Nadine voltava sem parar a assombrá-lo.
Desligou o som e foi até à sala, onde seu pai, o Detetive Gilberto, sem
camisa, barrigudão, lata de cerveja do lado, assistia a um programa cretino na
televisão.
“Pai.”
“Hm.”
“Me conta mais sobre o caso do Doutor Morioni.”
O pai pegou o controle remoto e apertou a tecla “mude”, virou-se para o
jovem e encarou-o.
“Zequinha, pára com essa mania. Se você quiser ser da polícia, faz o
concurso, eu já te disse, você tem segundo grau, pode ser escrivão. Se terminar
aquela porcaria de faculdade de nada, pode fazer prova pra detetive. Zequinha,
você não é burro, você passa na prova. O melhor ainda era você fazer curso de
Direito e se tornar delegado. Mas você é quem sabe. Meu filho, você é o único
que eu e sua mãe tivemos, e nós dois amamos muito você. Sabe que sempre pode
contar conosco, mas você precisa pensar na sua vida, no seu futuro, ganhar
autonomia. Tem que parar com essas bobagens de filosofia, de escrever besteira,
de dar chilique e ficar se internando em casa de repouso. Você não é louco,
você não é escritor, você não é filósofo. É bobagem ficar vivendo num filme.
Você gosta de resolver mistérios de roubos e assassinatos, você é inteligente,
forte, e tem um metro e noventa e oito de altura. Zequinha, eu me orgulho muito
de você. E vou me orgulhar mais ainda quando você arrumar uma mulher bem bonita
e arranjar um emprego, de preferência na casa.”
Atingido, Ezequiel foi levantando para sair da sala.
“Ah, e por favor, vê se esquece aquela sapatona!”
O jovem correu a se trancar de novo no quarto, tremendo de nervoso. Mas
ele não tinha coragem de enfrentar o pai durão, que ele amava tanto.
Não tinha jeito... era hora de pensar em Nadine.
Um dia avistou-a na faculdade.
Viu uma menina de um metro e sessenta de altura, magérrima, vestida com
roupas de hippie e cheia de piercings pelo corpo, nas orelhas (nas
cartilagens), no umbigo, no nariz, no lábio, na língua...
Parou seu corpanzil na sua frente e perguntou se ela era hippie.
Ela olhou para ele com desprezo e disse: “Não.”
Ele tentou rir e ficou pensando furiosamente em coisas espirituosas para
lhe dizer.
“Já sei. Hippie era sua avó!”
“Me deixa.”, ela falou rispidamente, e saiu quase correndo de perto dele.
Seguiu-a de longe e viu que ela entrava na Faculdade de Letras.
Lembrou-se do amigo Frederico, e foi procurar por ele, olhando de sala em
sala.
Quando o encontrou foi logo dizendo:
“Fred, você precisa me ajudar! Eu encontrei agora mesmo a mulher da minha
vida! Foi amor à primeira vista, uma loucura!”
“Quem sabe a cura?”
“Não entendi e nem quero. Eu falei com ela, e ela me esnobou brabo, mas
eu a vi entrando na sua faculdade. Você precisa me ajudar!”
“Como é o nome dela?”
“Ela não quis falar comigo, já disse.”
“Como ela é?”
“Baixinha assim como você, magra que nem você, clarinha igual a você.”
Frederico soltou uma gargalhada:
“Porra czar, tu ta apaixonado por mim!?”
“Merda! Eu tô falando sério!”
“Calma, cara. A gente vai descobrir quem é essa gata.”
“Ela tem dez milhões de piercings pelo corpo.”
Frederico fechou a cara.
Puxou o amigo para uma sala vazia, sentou-o e sentou-se em frente a ele.
“Eu sei quem é a garota.”
Ezequiel ficou feito louco.
“Então fala, cara, fala logo, onde ela está agora, como é o nome dela? Me
apresenta pra ela! Vamos, Fred, se mexe, puta que o pariu!”
“Calma. Ela estuda aqui sim. O nome dela é Nadine.”
“Nadine! Nadine!
Nadine! Nadine! Que nome lindo! Nadine! Nadine! Nadine e Ezequiel!”
“Calma, czar, olha, presta atenção no que eu vou te dizer.”
“O que é? Fala, fala, fala logo!”
“A Nadine é homossexual.”
Ezequiel não queria mais pensar naquilo.
Foi ao banheiro, foi à sala e sentou-se à frente da tv.
Os pais assistiam ao programa da Hebe Camargo, e davam gargalhadas.
Ezequiel tentou se concentrar nas conversas dos artistas.
Mas Nadine era como um vampiro voando em volta de sua cabeça.
A noite da festa... quando ela brigou com a sua amiga tão querida...
Ezequiel achava a outra simpática e bonita, na verdade muito atraente.
Mas ela parecia que sabia o que ele sentia, e olhava-o com verdadeiro ódio.
Frederico os apresentara na festa, e ele tentou ser simpático com as duas, mas
elas o trataram super mal. Talvez fosse desejo e miragem, mas ele tinha a
impressão de que Nadine sentia por ele a mesma atração irresistível que ele
sentia por ela. Porém parecia que ela tinha medo de olhar nos seus olhos, como
se gostar de meninos fosse uma coisa proibida, ilegal ou imoral.
Talvez fosse só fantasia dele. Ela todavia não o encarava sob hipótese
nenhuma.
Tomou vinho brasileiro, batida, vodka, cuba libre e cerveja.
Chegou perto dela e falou com voz pastosa de paixão:
“Ti znaiech shto ti otchen krassívaia, sitchás i vsigdá?”
Ela fingiu não entender ou não ouvir, e foi se agarrar na outra.
Ezequiel ficou triste, ouvindo música da década de sessenta e vendo a
jeunesse dorée dançar dançando.
De repente, notou que as duas estavam discutindo, se empurrando
emburradas, e viu a outra sair da festa.
Seguiu Nadine pelo salão, e quando ela parou para pegar uma bebida, ele
se encostou nela e falou:
“Do you speak English at
least?”
Ela olhou pra ele! E os olhos deles dois chisparam chamas de raios
múltiplos.
“Of course. A iá gavariú
pa-rússkii, tóje.”
Essa é a mulher da minha vida, ele pensou antes de cair de bêbado, aos
pés da aturdida menina.
Quando acordou a coisa tinha terminado e nem sinal de Nadine.
No dia seguinte procurou por ela na universidade, mas ela passou direto e
deixou-o falando sozinho.
Frederico arranjou seu telefone (finalmente!, o chato: “não adianta czar,
o lema dela é Viva Sapata!, ela não suporta homem com mangueirinha, você vai se
machucar, não vou te arrumar o telefone pra te dar falsas esperanças, depois
você se queima e não segura, vai procurar ‘interação’, esquece dela, melhor
arrumar outra musa” etc., o tal pentelho encravado), e Ezequiel correu a ligar.
Quando entendeu quem era ela gritou esganiçada: “Desencana!!!” e bateu o
telefone. Ele descobriu seu endereço na lista, espiava-a passar, sair, voltar,
as luzes acesas, as luzes apagadas, a amiga que dormia frequentemente em sua
casa, no seu quarto, em sua cama, com ela, “inocentemente”, sob o olhar
complacente de seus pais.
E ele foi pro quarto chorar.
Tudo poderia acontecer, a burrice, as barragens, as guerras, os doutores
morionis com suas máquinas fantásticas e suas fábricas desumanas, todas as
mulheres podiam virar cínicas ou lésbicas, nada, nunca, nada importava, ele
nunca, nunca, nunca, ela jamais iria esquecer nem renegar o seu amor verdadeiro
por Nadine.
Saiu e foi procurar o Pato Doido, pra ver se o maluco lhe conseguia
algumas drogas bem legais.
Capítulo 7
“Quanto anos você tem, Frederico?”
“Vinte e quatro. E você?”
“Vinte e cinco.”
Iracema veio, colocou as taças de sorvete sobre a mesa, falou qualquer
coisa e saiu. Frederico ainda não tinha se acostumado com aquela dona, não
sabia bem por quê.
“Puxa, tá ficando cada vez mais difícil de te encontrar!”
“Eu tô sempre por aí.”
“O que você anda fazendo?”
“Trabalhando na fábrica de salsichas. E você?”
“Tô no último ano da faculdade de letras, e arranjei uma escola onde dou
aulas.”
“Blérgh! Aturar crianças debilóides! Como você consegue?”
“Você faz salsicha.”
“E o Ismênio já pirou? Tá com quantos?”
“Vinte e nove. Você sabe, ele era de uma família pobre da baixada
fluminense, pai peão, trilhões de irmãos. Teve muita dificuldade pra poder se
formar, dinheiro pros livros, condução, essas coisas.”
“E agora vive num apartamento de luxo na Gávea? E sozinho? Onde está a
família dele?”
“Você lembra como ele era feio e mirrado? Lembra que não tinha amigos,
nem namorada, nem nada? E que no ano seguinte ficou de repente bonito, forte,
cheio de dinheiro e de mulheres, e que até arrumou amigos, por acaso nós?”
“Éramos os três patetas. Ele ficou sendo D’Artagnan. Mas como a vida
mudou tanto para ele, de uma hora para outra?”
“Você não sabe? Ele nunca te contou? Não acredito!”
“O que foi que ele não me contou?”
“Ele fez um pacto com o demônio.”
“Ridículo. Isso não existe.”
“José, você pode ser um materialista, um positivista, um cientista, sei
lá. Mas o fato é que o Ismênio era raquítico, feio e pobre num ano, e no ano
seguinte ficou forte, bonito e rico. Eu não vejo outra explicação.”
“Que falta de imaginação você tem, Fred. Ele pode, por exemplo, ter
ganhado na loteria. Manteve segredo, mudou prà zona sul, passou a se alimentar
bem, fez spa pra engordar, academia de ginástica, comprou roupas caras...
Dinheiro, esse o nome do seu diabo.”
“Talvez. Porém pode ser que quem esteja tendo pouca imaginação seja
você.”
“Ah, meu filho, nessa eu não caio.”
José riu.
“Vocês três são tão engraçados, com todas as suas mistificações!”
“Eu não faço mistificação nenhuma.”
“O poeta romântico da era quântica!”
Frederico riu.
“E o Ismênio?”
“O homem cibernético, gênio informático, alma semiótica, pacto
mefistotélico, o onanista luxuoso.”
“E o czar?”
“Você deve estar querendo se referir ao Ezequiel, aquele palhaço. Eu
sempre achei vergonhosa a submissão de todo mundo diante de tamanho babaca, só
porque ele tem um metro e noventa ou coisa que o valha de altura. Grandes
merda! Você já pensou quanto excremento um cavalão desses carrega na barriga e
caga todos os dias? E se faz de i-luminado, ins-pirado, para-normal. Uma
bichona, é isso que ele é.”
“Me desculpe, mas você diria isso na frente dele?”
“Eu? Pra quê? Pra o escroto metido a esquizofrênico sair espumando,
vermelho, histérico, querendo briga? Eu não. Com sorte, aliás, eu não quero
mais ficar na frente desse cossaco de bosta que vocês imbecilmente chamam de
tsar.”
“É sério? Pois ele mandou te chamar, juntamente com o Ismênio, pra nós
três irmos na casa dele amanhã, que ele está a par de um mistério terrível, que
nós temos que ajudá-lo, troço assim.”
“Não acredito! E vocês caem nessa? Tenha santa paciência, Frederico!”
Depois foi visitar a namorada.
Cirila abriu a porta do apartamento para ele vestida só de camiseta de
malha e calcinha rendada. Ele ficou todo sem jeito, ela explicou que os pais
tinham viajado, e que a casa era deles por três dias.
“E você atende à porta assim?”
“Que que tem bobo? Eu sabia que só podia ser você!”
Os dois se agarraram com tesão.
Depois de muito se beijarem e acariciarem na sala, Frederico pegou Cirila
no colo e levou-a para o quarto de seus pais.
“Frederico, ai, Frederico, eu te amo! Meu amor!”
Enquanto penetrava comovido o corpo lindo de sua mulher, Frederico não
conseguia parar de pensar: “será se é realmente ela?”
Capítulo 8
“Alô? Fred? É o Ezequiel.”
“Oi, czar, tudo otchen kharachó? Já to indo praí.”
“Não. Espera. Não. Não dá. Eu tô indo me interar. Agora.”
“Ai, ai, ai. Sai dessa, não vai não!”
“Não dá, tenho de ir. Muita droga.”
“Volta logo.”
“Avisa os outros.”
“Tá, aviso. Quando você voltar, liga pra mim,”
Silêncio. Frederico pensou que o Ezequiel tinha largado e telefone e
saído. Mas esperou. Um pouco depois, o outro tornou a falar:
“Fred...”
“Fala.”
“Liga prà Nadine, diz que... não, não diz isso não. Fala que eu volto
logo, só isso, não conta onde eu estou, nem o que vou fazer lá, nem me aparece
por lá você. Fala pra ela não ficar preocupada, que eu volto logo.”
Pronto, pirou.
“E Fred...”
“Fala.”
“Eu não posso ainda te revelar tudo o que está acontecendo. Talvez você
consiga descobrir por si mesmo. Pede ajuda ao Ismênio, com as geringonças dele,
talvez vocês encontrem alguma coisa em algum lugar, de alguma maneira...
Pesquisa o caso Morioni.”
“Tá. Vê se se cuida...”
“Não !!! Anota aí, merda, Doutor Lucas S. Morioni. Anotou?”
“Peraí. Doutor Lucas S. Morioni. É isso?”
“É.”
“E o esse?”
“Não sei ainda.”
Pausa.
“Promete. Procura o Ismênio, entra na rede com ele, vasculha tudo,
descobre o que puder sobre Morioni. Não esquece: Morioni. Promete.”
“Prometo. Sério.”
Pausa.
“Fred...”
“Fala.”
“Não sei se eu volto. Me ajuda. Descobre o que puder.”
“Eu juro.”
“Fred...”
“Fala.”
“Meu pai sabe de tudo. Ele é um dos tiras que estão investigando o caso.
Não é loucura minha. Mas ele não pode falar. Tchau.”
E desligou.
Frederico se arrumou e saiu para a casa de Ismênio, preocupado.
Ezequiel falara de um modo tão sério, não custava tentar... Levava o
papel com o nome misterioso: Dr. Lucas S. Morioni.
Não precisava desmarcar com o José, que dissera que não iria mesmo à casa
de quem ele José considerava um mentecapto.
Já Ismênio nunca atendia ao telefone de gente, só se comunicava por
computador, e Frederico nem tinha nem sabia mexer com a máquina, ainda,
anacrônico.
Ao sair verificou que as nuvens escuras e pesadas se moviam com rapidez
estonteante, como se estivessem lutando pelo céu.
Ao entrar no ônibus sentiu as primeiras gotas de chuva grossa. Quando
estava no meio da viagem, as ruas da cidade viraram caudalosos rios, pelos
quais era impossível transitar; e pessoas corriam, ou tentavam, carros viravam,
outros eram arrastados pela correnteza, gente caía nos bueiros ou era
eletrocutado pelos cabos de alta tensão que caíam desencapados nas ruas, e
Frederico pensou assustado: “E agora?”.
Capítulo 9
O sol brilhava forte e o céu estava azul igual os olhos de Claudete
Grant.
Frederico saltou do ônibus e entrou no prédio onde morava Ezequiel, na
Vila das Famílias. Era de tarde, e só a sua mãe estava em casa.
“Boa tarde, Dona Graça, tudo bem com a senhora?”
“Boa tarde, meu filho, vou indo como Deus quer.”
“E o Ezequiel, melhorou?”
“Nada. Ainda internado. Ele mesmo diz que precisa ficar lá, para
desintoxicar, veja que absurdo. Sorte o pai dele ser da polícia, senão ele iria
acabar na cadeia. Já foi preso em boca de fumo, foi pego com maconha, andando
pela rua. Mas o Gilberto vai lá e livra a cara dele. Agora ele mesmo pede pra
se internar. Eu não entendo esse menino! Eu e o pai fazemos tudo por ele, e ele
vive nessa paranóia, não estuda, não trabalha, o que vai ser do Zequinha?”
Frederico sentou no sofá e ficou ouvindo o lenga-lenga da mulher. Seu
pensamento estava longe, e ele de vez em quando balançava a cabeça num esboço
de conivência, enquanto pensava no caso Morioni.
Lembrou do dia em que Ezequiel ligara, e ele fora à casa de Ismênio, onde
só chegou cinco horas depois, devido a um dos muitos temporais que simplesmente
param a cidade, no verão.
Ismênio não levou muito a sério o que Ezequiel tinha falado para
Frederico, mas a insistentes instâncias deste, concordou em pesquisar, não sem
antes explicar que era bem difícil e trabalhoso encontrar alguma coisa na rede
assim, que se houvesse registros da polícia eles não teriam acesso, que havia n
sites e endereços, o que eles iriam pedir ao programa de busca? Tá na cara que
não haveria nada sob o termo “Morioni”
Encontraram.
Em uma página de ciência, estava escrito:
MORIONI, Dr. Lucas da Silva, PhD. Cientista brasileiro, consta que teria
sido o primeiro a tentar experiências com engenharia genética e clonagem. Foi
considerado louco na época, esteve envolvido em vários escândalos e processos,
entre os quais o do roubo de cadáveres e de uso de substâncias ilegais, para
fins médicos e/ou de pesquisa. Desaparecido há vinte anos, não se sabe ao certo
se ainda está vivo, ou qual o seu paradeiro. Especula-se em mudança de país e
até mesmo em troca de identidade.
Estranho. E mais nada encontraram, mesmo depois de muitas horas de busca
ininterrupta. Desistiram, devido ao cansaço. Ismênio prometeu continuar,
depois.
Antes de sair, Frederico perguntou, talvez influenciado pelo clima
fantástico que a história de Morioni deflagrara:
“Você nunca me contou direito... como você fez o pacto?”
“Você quer saber como eu fiz o pacto com o demônio?”
“Quero.”
“Por quê? Está a fim de fazer um também?
Frederico sentiu um arrepio subir pelo seu corpo.
“Só curiosidade.”
“Foi pela rede. Um dia eu entrei e perguntei se o diabo estava me lendo.
Aí apareceu a palavra SIM escrita na tela. Eu comecei a falar com ele, e
perguntei sobre o pacto. Ele me explicou tudo, o diabo é muito educado, um
verdadeiro gentleman, inteligente e cheio de espírito.”
“Você fez o pacto pelo computador?”
“Foi.”
“E como sabe que não foi alguma brincadeira?”
Frederico teve a impressão de ver um brilho vermelho passar pelos olhos
do amigo.
“Eu sei.”
De repente Frederico percebeu que a mãe do amigo estava já há alguns
minutos calada. Tomou coragem.
“Dona Graça, eu fui várias vezes na clínica, eles nunca me deixam ver o
Ezequiel.”
“Eu sei. Foi pedido dele mesmo, ele não quer ver ninguém.”
“Eu pensei que a senhora pudesse me ajudar.”
“Especialmente você. Eu sei que vocês dois são grandes amigos, não fique
triste, é que o Zequinha precisa desintoxicar. Ele diz que a linguagem verbal
humana é uma droga, não quer falar com ninguém. Mas não fique chateado, daqui a
pouco ele está de volta e bem. Eu sei o que você quer, o Zequinha me falou que
você ia me procurar por causa de uns papéis, parece que é um conto, que ele ou
você escreveu, não lembro bem. Não se aborreça comigo, eu tentei ler a coisa,
sabia lá o que podia ser, mas vi que era só bobagem de ficção, não entendi
nada. Toma, tá aqui neste envelope.”
Frederico tentou ao máximo conter a excitação, pegou o envelope,
agradeceu muitíssimo e saiu dali quase correndo, foi procurar uma praça pública
onde sentou a um banco e leu o texto que havia ali:
O homem secreto
Os dois cunhados estavam viajando para outro estado,
onde iriam a uma reunião de família, ao encontro de suas mulheres, que tinham
ido na frente. Wreb, corretor de seguros, contava casos extravagantes para
distrair Blinghol, o médico seu contra-parente, que guiava.
Depois de algumas horas o estoque de mentiras e casos
de Wreb foi se esgotando. Aí ele propôs:
- Que tal agora invertermos? Eu posso dirigir, e você
mente.
- Bem, podemos tentar.
- Ok.
Pararam o carro, desceram, andaram um pouco, voltaram a
entrar, os lugares trocados, agora.
- Então vamos à história.
- É... só que eu não vou te contar uma fantasia, não
tenho imaginação para criar essas coisas. Mas já que você me pede, e já que
você me divertiu todo este tempo contando seus casos tão interessantes, eu vou
narrar uma experiência que realmente aconteceu comigo.
- Tudo que eu falei era verdade. Mas, não importa,
vamos aos fatos.
- Eu era estudante de medicina, há vinte anos atrás, e
tinha em um professor laureado da universidade um ídolo, um guia e um amigo.
Ele se chamava Dr. Lucas da Silva Morioni, e tinha obtido fama internacional
com suas pesquisas em genética.
Na qualidade de seu monitor, eu frequentava com muita
assiduidade uma determinada casa onde ele tinha instalado seu laboratório
particular.
Em dada ocasião, uma colega da faculdade morreu
subitamente, ao escorregar no banheiro e bater com a cabeça, uma coisa
estúpida, sem sentido. Eu fiquei arrasado.
No dia de seu enterro, à noite, fui ao laboratório
particular de meu mentor, buscando alívio, ou, pelo menos, o consolo de algum
interesse em qualquer nova pesquisa.
Ao chegar lá toquei a campainha, e a porta me foi
aberta por... minha colega morta! Que estava ali, na minha frente, viva,
andando, mas que parecia uma pessoa drogada, hipnotizada, um zumbi.
Ela não quis deixar o local comigo, porém eu a peguei à
força e arrastei para o meu carro, enquanto ouvia, ao longe, os gritos de
Morioni, que, da porta de seu laboratório, me ordenava que voltasse, dizendo-me
que eu era um imbecil, que estava pondo tudo a perder.
Logo depois chegava à delegacia com a moça nos braços.
Ela estava morta, no estado de decomposição correspondente aos dois dias que já
haviam se passado.
Fiquei em estado de choque. Contei minha história, mas
ninguém acreditou em mim, pensaram que eu tinha imaginado vê-la viva, e
acusaram o Dr. Morioni apenas por profanação de túmulo e roubo de cadáver.
Nunca mais o médico foi visto, a partir da noite da
terrível descoberta. Por mais que tentasse, a polícia não conseguiu nunca
encontrá-lo - e aqui o Dr. Blinghol encerrou sua história, que deixou Wreb
impressionado e pensativo.
Começava a chover forte.
- Essa história é mesmo verdadeira?
- É. Dou-lhe minha palavra. Nunca a conta para ninguém,
pois sei que todos achariam que eu tive um delírio, devido a forte emoção. Mas
eu posso garantir a você que eu estava totalmente lúcido, que eu não me
enganei, e que tudo aconteceu exatamente como eu lhe contei.
A chuva ficava cada vez mais forte.
- E qual a explicação científica para o fenômeno?
- Não existe explicação. O que eu vi naquela noite foi
algo impossível.
Neste instante o carro parou, como se seu motor tivesse
sido desligado. Os dois tentaram manter a calma, examinaram a máquina, tentaram
empurrar, debaixo do fortíssimo temporal, tudo em vão.
Já se conformavam com a perspectiva de passar a noite
no carro, quando avistaram ao longe uma mansão, isolada naquele fim de mundo.
Correram para lá, alegres, mas temerosos de que a
enorme casa estivesse vazia.
Ao serem atendidos por um mordomo correto, bem vestido,
educado, ficaram mais calmos. Ele os fez entrar e convidou-os a sentar em
confortáveis poltronas na sala, dizendo que não importava se as molhassem, por
favor, fiquem à vontade.
Depois disse que iria chamar o proprietário, o Dr.
Evilásio Pantoja.
Blinghol e Wreb sorriram alegres, quando seu anfitrião
desceu as escadas e apareceu na sala.
Foi aí que o Dr. Blinghol soltou um grito de puro
pavor:
- Doutor Morioni!
Wreb entendeu tudo numa fração de segundo e tentou
fugir, apenas para verificar que estava como que dopado, ou hipnotizado, e não
conseguia se mover.
Nunca mais se soube nada de Wreb e do Dr. Blinghol.
Frederico guardou os papéis dentro do envelope, confuso. Como Ezequiel
poderia saber de tanta coisa? Era tudo loucura? Ou estava realmente
acontecendo? Afinal, quem era esse tal de Morioni, ou Pantoja? E em quê
consistia a sua pesquisa científica?
Capítulo 10
Laio acordou enjoado, com a cabeça vazia. Abriu lentamente os olhos,
confuso. Não lembrava de nada. Estava no meio de um forte matagal, ao léu. Como
fora parar ali? Sentiu uma fisgada na perna esquerda, outra na mão direita.
Olhou para esta e pode verificar que os dedos anular e mínimo tinham sido
arrancados.
Tentou levantar-se e constatou que a perna também estava ferida, e doía
no limite da suportabilidade. O corpo todo estava dolorido, as roupas rasgadas
e sujas, mas, fora alguns arranhões disseminados, aqueles eram os únicos
ferimentos graves. O que teria acontecido com ele?
Foi quando viu que um negro de mais de dois metros o observava, de uma
certa distância.
“Vulcão Lunático!”, pensou, e então lembrou de tudo.
O bruxo se aproximou e perguntou:
“Trouxe os artigos que eu lhe encomendei?”, assim, como se Laio tivesse ido
ao supermercado.
“Aqui estão os sacos e o frasco. Fiz tudo conforme falou. Quase morri.
Foi uma luta terrível! Que lugar é aquele?”
“Não importa. Você não entenderia.”
“Quando eu despertei me vi no meio da mais fantástica floresta que você
possa imaginar, com cogumelos do tamanho de prédios, e animais que pareciam
saídos da mais delirante ficção científica. Procurei a planta primeiro...”
“Não quero saber dos detalhes. Você foi lá, cumpriu a sua parte, me
trouxe o que lhe pedi. Eu fiz uma mágica: Sofia está apaixonada por você.
Estamos quites. Adeus.”
“Espere! Estou todo ferido. Eu pensei que aquele mundo era um sonho
induzido pela droga que você me deu...”
“Eu tinha lhe avisado. É um mundo real.”
“Outra dimensão?”
“Não sei nem quero saber. Como já disse, Sofia é sua. Tenho que ir.
Adeus.”
“Espere! Como posso ter certeza de que você cumpriu mesmo a sua parte do
trato?”
Vulcão Lunático gargalhou com fúria de leão.
“Tolo! Pobre! Estúpido! Seu eu quisesse... Você é imbecil, não pode
entender, você é como uma criancinha. Confie. Eu fiz a mágica, e Sofia te
amará, pobre idiota.”
Riu ainda.
“Espere! Eu... me lembro de outro planeta, diferente da floresta dos
cogumelos gigantes, que tinha um céu cor de rosa, e dois sóis abraçados no céu,
envolvidos por uma grande espiral de gás alaranjado. Também me lembro do nome
Louco Morioni. Isso faz algum sentido?"
Vulcão Lunático riu de novo.
“Você está começando a se lembrar. Isso é bom. Fique calmo, relaxe. Tudo
virá por si. Adeus.”
Entrou na folhagem e desapareceu. Mas, um segundo depois, voltou.
“Guarde bem: seu nome agora é Lyáios Theóphoros.”
Depois de dizer mais estas enigmáticas palavras, Vulcão Lunático sumiu no
meio do mato cerrado, deixando Laio sozinho e confuso, em um morro
desconhecido.
Capítulo 11
Ismênio leu as páginas manuscritas que Frederico lhe dera e comentou:
“Isso é um conto, ficção. Ou então é delírio do Ezequiel. Me admira você,
levando essa bobajada a sério.”
Frederico cruzou as pernas, a mão no queixo, os olhos boiando entre os
peixinhos dourados do aquário da sala do apartamento de Ismênio.
“Mas o pai dele é da polícia, e Ezequiel insinuou que ele está
investigando o caso.”
“A polícia não poderia conhecer os detalhes que estão no conto. Ali mesmo
se diz que nunca mais se soube nada das duas figuras, como é mesmo que são os
nomes deles?”
“Blinghol e Wreb.”
“Nomes ridículos! Pois é, pura bobagem, literatura!”
“Literatura não é bobagem.”
“Você sabe o que eu quero dizer.”
“Não sei não. Isso só pode ser ignorância. Você, que gosta tanto de
computador e de realidade virtual, saiba que o livro e o texto escrito foram os
primeiros computadores e aparelhos de indução à realidade virtual que o ser
humano fabricou.”
“Não quero discutir isso. Desculpe falar mal de seus vetustos
alfarrábios.”
“Você esquece que nós encontramos a referência na rede?”
“Aquilo também pode ser ficção. O próprio Ezequiel pode ter
colocado o texto lá, ele não é analfabeto, é?”
“Touché! Está bem, eu te chamei de ignorante, você me chama de
analfabeto. Aliás, é o segundo, o czar também disse que o sou, só porque não
sei sânscrito, hebraico, grego e latim.”
“Não sabe?! Você não faz letras? Pois ele está certo!.”
“Até tu Brutus! Pois saiba que as meninas lá da faculdade, tipo a Nadine,
só querem saber de inglês e espanhol, e olhe lá. Elas acham ridículo
alguém estudar um idioma não comercial, como os que eu citei e, em menor
escala, italiano, alemão e japonês.”
“E com isso? São burras, o mundo tá cheio de gente estúpida, eu pensei
que você fosse diferente.”
“Vocês três deram pra me esculhambar, é complô?”
“Quem é Nadine?”
“Faz parte talvez do nosso mistério. É uma garota lá da faculdade, pela
qual o Ezequiel está trincado, só que ela é lésbica e tem alergia a pirulito.”
“Isso não tem nada a ver. O Ezequiel já namorou um monte de mulher, de
tudo quanto é tipo, e sempre foi maluco, a culpa não foi delas.”
“Nem dele.”
“Hm.”
Ao lado do aquário uma tv sem som mostrava mulheres louras e altas,
andando sensuais. Em outro canto da sala, um som ligado baixinho tocava música
clássica direto. A tela do computador mostrava que ele estava conectado com a
rede. A sala se mantinha permanentemente na penumbra de lâmpadas fracas
encobertas por abajures, as janelas sempre fechadas, um cheiro de patichuli
perfumava o ambiente.
“Essa história do Ezequiel... pode ser verdade, pode ser piração. Mas e
daí? O que ele tem com isso? O que nós temos com isso? O nosso é um país de
escândalos, corrupções, barbaridades. Nós não somos paladinos da justiça,
caça-fantasmas ou os três mosqueteiros, toda essa besteira adolescente já
passou. Se ele quer brincar de detetive, tudo bem, é uma profissão como
outra qualquer, mas ele não tem o direito de ficar nos envolvendo nisso, nem
você tem necessidade de ficar obsedado por essa história, que não te diz
respeito. Você não tem mais o que fazer? Vá tratar da faculdade, dos teus
aluninhos, vá preparar aulas, vai namorar, escreva livros. Deixe a psicose de
Ezequiel pros médicos, e os crimes (se é que os há) de Morioni para a polícia.”
“Tá bem. Eu não vou mais te envolver nisso. Eu pensei que você se
preocupasse com o czar.”
“Você e ele são meus amigos, quase que de infância, e é claro que eu
gosto de vocês e quero saber o que está acontecendo, tanto com um quanto com o
outro. Mas a gente não é mais aluno secundário, eu não vou ficar perdendo tempo
com as fantasias de um lunático.”
“Tá.”
Ficaram em silêncio, meio sem jeito, Ismênio aliviado por ter sido
sincero, mas um pouco constrangido com a possibilidade de ter magoado o amigo.
“Você talvez não perceba, ainda, Fred, mas nós estamos vivendo uma
realidade muito mais fantástica do que os mais arrojados delírios de qualquer
maluco, ou de qualquer escritor.”
“Você falando assim parece que os considera no mesmo nível. E o seu pacto
com o demônio?”
“Deixa isso pra lá... tá bem, o meu pacto. O demônio faz parte disso
tudo. Não é o demônio dos religiosos medievais, eu não sou basbaque, não
acredito nisso; quando eu falo em diabo estou me referindo a este nosso novo
mundo, a esta face auto-devoradora e esquizofrênica do capitalismo pós-industrial,
ao mundo informático, às pluri-realidades virtuais. Foi com eles o meu pacto.
Meu pai ganhava pouco, mas conseguiu comprar pra mim um micro velho. E eu
descobri que sou uma espécie de gênio informático. Fiz programas que vendi, e
desde então trabalho como free lancer, e ganho uma montanha de dinheiro com
isso. Trabalhar e ganhar dinheiro, descobrir uma atividade que tanto me
eletriza, tudo isso aumentou muito minha auto-estima, e me transformou para
melhor. Vocês ficaram perplexos com a minha metamorfose, e me indagaram o que
tinha havido. Em parte expressando meu próprio pensamento sobre o
pós-capitalismo da informação, em parte brincando com vocês, com a sua
crendice, com o anacronismo da mentalidade de certas pessoas, eu falei em pacto
com o diabo. José de Alencar, químico frustrado, mas inteligente, não levou a
sério. Porém você e Ezequiel acreditaram: ele, porque é pinel; você, porque é
um poeta romântico deslocado, um escritor espiritualmente ligado ao século
dezenove.”
“Cada vez eu penso mais em tramóia de vocês. O José me disse quase que
exatamente a mesma coisa, a meu respeito.”
“É porque é verdade. Isso não é ruim. Alguém tem que ser poeta romântico,
alguém tem que ser louco, alguém tem que ser policial, alguém tem que ser
fracassado, alguém tem que ser gênio e ficar rico. É como se fosse uma peça de
teatro, e cada um de nós ganhasse um papel diferente (você sabe, só há
espetáculo se todos quiserem representar os seus personagens desiguais). Nosso
orgulho de atores deve ser o de desempenhar a parte que nos coube da melhor
maneira possível.”
Capítulo 12
Zeca dOlivares era um sujeito pacato, velho, aposentado, que morava só
com a esposa em um dos prédios da Vila das Famílias.
Tinha seus mistérios. Às vezes chegava em casa com embrulhos, se trancava
no quarto ou no banheiro por um longo tempo, e não deixava a mulher entrar, nem
queria lhe dizer o que era que tinha trazido da rua, ou o que fazia com as
misteriosas coisas trancadas em uma gaveta, da qual só ele tinha a chave.
Todavia Dona Isidora não se preocupava, era uma esquisitice inofensiva, o
que poderia ser? Alguma coleção, revistas de mulher pelada, nada que o
aposentado marido fizesse ou com que se ocupasse poderia ainda lhe despertar
ciúme ou até mesmo interesse.
A vida entre os dois seguia pacata, a não ser por outra das
idiossincrasias de Zeca: sua irritabilidade. Apesar da idade avançada, ele era
dado a ataques de fúria, quando fazia gestos tresloucados. Por sorte, tais
momentos eram esporádicos.
Exemplo: um dia ele teve que ficar a tarde toda na rua, tratando de
negócios, e voltou às nove da noite pra casa, exausto e com fome.
Só que justamente naquele dia Dona Isidora olhava hipnotizada para a
televisão, acompanhando o último capítulo de sua novela, e não tinha ainda
feito o jantar.
Zeca, ao perceber o que se passava, começou a gritar e a jogar coisas no
chão. A mulher ignorou-o com fleuma, e prosseguiu acompanhando o programa como
se nada houvesse acontecido. A única providência que tomou foi colocar o
aparelho no volume máximo, para encobrir com as falas das personagens os gritos
histéricos de Zeca dOlivares.
Diante da indiferença de Dona Isidora, o ancião pegou um jarro antigo,
presente da avó dela, uma relíquia de família, e arremessou-o sobre o papagaio,
que acordara com a gritaria e estava repetindo as frases que sabia de cor, aos
gritos, nervoso, com insistência. O jarro se espatifou e a ave jazeu morta,
dependurada pela corrente que a prendia pelo pé.
Dona Isidora ficou uma semana sem falar com o marido, que todo dia
tentava abraçá-la na cama, no escuro, de noite. Ela sempre o empurrava e saía
prà sala, onde ficava, deitada no sofá, cochilando, até ter certeza de que ele
pegara no sono, quando então voltava para a cama e dormia sossegada.
Uma semana depois ele fez uma pergunta comezinha, distraído, esquecido da
briga, e ela respondeu, adrede, pazes declaradas. Mas redarguiu:
- Precisava matar o papagaio?
Ele pediu desculpas, envergonhado, também pelo vaso da avó.
Assim era Zeca dOlivares.
Capítulo 13
Dona Graça foi visitar o filho na clínica.
Ele estava sozinho no quarto, lendo, quando ela entrou.
“Meu filhinho, como você está? O médico me disse que você não tem nada
demais, que você está ótimo. O que você acha de voltar para casa?”
Ezequiel olhou para ela e falou com voz empostada:
“Eu olhei: havia um vento
tempestuoso que soprava do norte, uma grande nuvem e um fogo chamejante; em
torno, de uma grande claridade e no centro de algo que parecia electro, no meio
do fogo. No centro, algo com forma semelhante a quatro animais, mas cuja
aparência fazia lembrar uma forma humana. Cada qual tinha quatro faces e quatro
asas. As suas pernas eram retas e os seus cascos como cascos de novilho, mas
luzentes, lembrando o brilho do latão polido. Sob as suas asas havia mãos
humanas voltadas para as quatro direções, como as faces e as asas dos quatro.
As asas se tocavam entre si; eles não se voltavam ao caminharem; antes, todos
caminhavam para a frente; quanto às suas faces, tinham forma semelhante à de um
homem, mas os quatro apresentavam face de leão do lado direito e todos os
quatro apresentavam face de touro do lado esquerdo. Ademais, todos os quatro
tinham face de águia. As suas asas abriam-se para cima. Cada qual tinha duas
asas que se tocavam e duas que cobriam o corpo; todos moviam-se diretamente
para frente, seguindo a direção em que o espírito os conduzia; enquanto se
moviam, nunca se voltavam para o lado.”
“Meu filho, que coisas estranhas são essas? Você está lendo a Bíblia?”
Ezequiel se pôs de pé e olhou-a de cima:
“Mãe, eu vi o carro!”
Dona Graça acariciou seu rosto, fê-lo sentar-se à cama, alisou seus
cabelos.
“O doutor falou que você nunca sai do quarto. Você viu o carro de quem?
Quando? Você chegou até o portão da rua?”
Ezequiel estava malemolente pelos carinhos dela, e falou como se
estivesse muito cansado:
“Eu fui além, muito além disso...”
“E não me falaram! Que clínica desorganizada! Eu vou agora mesmo pedir
sua alta ao médico, vou ver se consigo levar você comigo pra casa, ainda hoje.”
O filho começou a tremer.
“O que é isso, menino?”
“Mãe, por favor, não quero voltar pra casa, ainda não, por favor, eu
preciso me desintoxicar, preciso mesmo!”
“Mas Zequinha, o doutor falou que você não está com intoxicação nenhuma,
que você só tomou remédio com uísque, há duas semanas atrás, que você está
bem.”
“Deixa eu ficar aqui mais três dias, por favor, mais três dias, eu lhe
peço, por favor...”
“Tá bem, calma, calma, fique calmo, eu vou conversar com o médico e
marcar sua alta para daqui a dois dias.”
“Obrigado, mulher, muito obrigado.”
“Agora eu vou falar com o doutor.”
A mãe se levantou para sair.
“Eu comi o livro!”, declarou-lhe o filho.
“Zequinha, não fica comendo papel, esse menino!”
Capítulo 14
Assim que saiu do hospital, para onde fora conduzido pela polícia, que o
encontrara sangrando e ferido perto de um morro do subúrbio, Laio foi para a
casa da tia. Declarou à polícia e aos médicos não saber o que aconteceu, se
fora atacado por algum animal, pelo quê ou por quem. Estava sem dinheiro nem documentos.
Revelou onde morava, trabalhava e estudava. Tentaram avisar sua tia pelo
telefone da vizinha, mas esta se recusou a dar o recado.
Ao chegar a tia deu um grito:
“Laio! Por onde você andou, menino? O que houve com sua perna? E os seus
dedos?! O que foi isto???”
Mentiu que caminhava pela rua quando foi atacado por uma matilha de cães
ferozes; não podia revelar a verdade para ninguém - quem acreditaria que um
monstro fabuloso chamado kriniu rgatniok arrancara dois dedos de sua mão e
rasgara os nervos de sua pele, que uma planta de sonho chamada erva edagôntia o
queimara tão fundo, ou que seus pés tinham duas cobras entrelaçadas, tatuagem
feita pelas águas corrosivas da fonte de pasturo?
Nem o Vulcão quis saber.
“Roubaram todo o nosso dinheiro, na mesma noite em que você sumiu.”
“A senhora desconfiou de mim?”
“É claro que não!”
“E como vai ser?”
“Ah, não se preocupe, a comadre Lindalva me emprestou, pra eu pagar aos
poucos.”
Laio se lavou, se perfumou, se penteou e vestiu sua melhor roupa.
Logo depois tocava a campainha da bela casa de Sofia.
As araras gritaram, os cães latiram.
A empregada apareceu.
Ao vê-lo, meio que se assustou, falou precipitadamente:
“A Dona Sofia ainda está viajando, vai ficar fora muitos meses...”
Foi interrompida pela própria Sofia que apareceu atrás dela, mais linda
do que nunca, uma visão celestial.
“Deixe o senhor Laio entrar, Dolores, quero conversar com ele.”
“Sim senhora. Por aqui.”
Laio passou pelo viveiro, pelas araras e outros pássaros fartamente
coloridos, pela fonte onde um menino mijava sem parar, pela piscina de água
suavemente esverdeada, pelos galgos acorrentados, pelos carros importados
estacionados no jardim, pela porta de madeira de lei ricamente entalhada, pela
sala de tapetes persas e quadros na parede, pelo living particular de Sofia, só
aberto aos eleitos, onde ele antes nunca tinha pisado, e onde ela tinha uma
coleção de livros raros e uma múmia dentro de uma redoma com temperatura
controlada, pela porta de seu quarto de dormir, pelas cortinas pendentes do dossel
de sua cama, cor azul celeste e bordado de ouro, pelas suas roupas raras e
caras, pelos seus lábios, pelos seus dentes de pérolas, pela sua garganta,
pelos seus braços, seus seios, por seus quadris, sua calcinha, pelos seus
pentelhos, por seus grandes lábios, e pelos pequenos, por sua vagina, e chegou
ao seu útero escuro, onde plantou a semente de sua existência.
Capítulo 15
“Talvez”, aventou Frederico, “você tenha mesmo feito o pacto, quando
pensava que brincava, e nem tenha dado pela coisa.”
Ismênio olhou-o sério.
“Você acha mesmo isso?”
“Estou brincando, são apenas jogos mentais. Vocês falam tanto que eu sou
um poeta, um romântico, mas, sabe, o meu sonho é escrever um grande romance. E
todo romancista é cético, ao contrário dos poetas, dos profetas, dos filósofos
e dos ensaístas. Escrever um romance, com tantos personagens diferentes falando
entre si e pensando de forma tão singular, criar ações, descrições, diálogos e
monólogos interiores, caracteres psíquicos e físicos, tempo-espaço verossímil,
tudo isso faz do romancista um descrente por natureza, ou uma espécie de crente
tala larga, que pode crer em tudo, sem nunca crer em nada.”
“Sei.”
A campainha tocou. Ismênio pensou: “se esse meu interessante e chato
amigo não estivesse aqui a chilrear suas balelas, eu estaria no dreammer e não
ouviria a maldita campainha, e, por conseguinte, não estaria na obrigação moral
e social de atender a um outro chato interessante que aguarda atrás da porta, e
que fará uma corrente de achares e quasares e pulsares ao redor dos pulsos de
minha atenção, cadeia de interação, quando toda a ação que eu quero está na
minha mente e na supermente da inter-rede. Enfim, vamos à chacrinha.”
Era José de Alencar, que vinha para chorar as mágoas de sua Iracema, e ficou
muito satisfeito de adquirir quatro ouvidos pelo preço de dois.
“Camaradas, eu não aguento mais aquela mulher!”
“Larga dela”, sugeriu-lhe o anfitrião.
“Se fosse assim tão fácil...”
“E o que o impede?”, indagou Fred.
“Não sei... Tudo, nada. Tesão. Ela é linda, linda, uma delícia! Mulata de
corpo perfeito, nem gorda nem magra, sua pele lisa é homogênea, seus membros
fortes, sua bunda maravilhosa, sua xota cheirosa e macia... seus cabelos, seus
lábios, seus olhos!”
“Ei, tovarishtch, como diria o Ezequi-é-lé-lé, é melhor tu ir correndo
encontrá-la, antes que se esporre todo aí sozinho.”
“Qualé, Ismênio, deixa o cara desabafar! Vocês, hein! É pra isso que
servem os amigos. Fala, José, conta, qual é o problema?”
“Tenho vergonha...”
“Ela te bota chifre, eu sei, o Frederico sabe, o Zeca sabe, e metade da
torcida do Flamengo.”
Por uma semi-delicadeza Ismênio não disse tudo o que pensava, que a outra
metade estava para além de saber, tendo obtido dela a práxis.
“Que é isso gente?! Manera, Ismênio, tu tá maluco??”
“Deixa, Frederico, é verdade, eu sei e vocês também sabem que ela me
trai. Ela faz sexo com outros homens. É esporádico, porém...”
“Porra! Meu amigo, deixa de ser bobo. Essa mulher não gosta de você! Se
ela gostasse não te traía, não brigava tanto contigo. Tudo bem, ela é um tesão,
a foda de vocês dois pode ser a milésima primeira maravilha do mundo, mas... e
daí??? Cai fora. Você vai encontrar outras mulheres tão ou mais
sensacionais, ainda.”
Fez-se um longo silêncio, durante o qual o dono da casa serviu uísque a
todos.
Aos poucos o José foi se animando.
“Vamos deixar essa história pra lá, depois eu resolvo. Como vão os seus
computadores, Ismênio?”
“Meu computador e todos os outros vão bem, batem altos papos.”
“Ele leva o computador dele todo o dia pra passear no jardim, tomar sol e
chuva, ver as novidades, conversar com os colegas e namorar.”
“Pra que que serve isso, isso, aquilo, aquilo e aquilo outro?”
“É complicado de explicar.”
Ismênio começou a ficar com uma saudade enorme de sua solidão.
“Quando você chegou o Ismênio ia justamente explicar por que a
informática é a maior revolução pela qual a humanidade já passou.”
“É complicado, levaria tempo.”
“Tempo é o que nós temos.”
“Todo mundo sabe disso.”
“O José de Alencar não sabe, nem eu.”
Teve vontade de dizer que ele não tinha culpa dos dois serem tão
ignorantes e analfabetos, mas resolveu contemporizar, levando em conta que já
fora agressivo demais hoje, tanto com um quanto com outro.
“O Ezequiel está todo impressionado com a possibilidade de que um velho cientista,
sob identidade falsa, por ser foragido da polícia, esteja há vinte anos
trabalhando clandestinamente com engenharia genética, clonagem e outra coisas
assim, para isso praticando delitos como roubo de cadáveres e uso de
substâncias proibidas, e provavelmente, até mesmo sequestro e homicídio. Ele
esquece que hoje em dia, no mundo todo, essas pesquisas estão em andamento, de
forma mais ou menos secreta. Que em 1945 duas bombas atômicas explodiram sobre
duas cidades do Japão, que na década de 50 o homem fez satélites artificiais,
que em 1961 Gagárin entrou em órbita da Terra e que em 1969 os americanos
pisaram na Lua.
“Tudo isso, a biologia molecular, as diversas bombas nucleares, os vôo
espaciais, os robôs, e toda a tecnologia que constrói a estrutura metálica,
maciça, elétrica, eletrônica, aquosa, informacional e neurológica, das cidades
atuais; tudo, tudo, tudo, depende de padrões estabelecidos pela informática,
está ligado aos computadores e foi neles projetado e realizado. A teoria dos
três poderes é arcaica: hoje há uma pluralidade de poderes, o estado
esquizofrênico. Leiam Gilles Deleuze e Félix Guattari. Ainda pouco tempo atrás
existiam cinco poderes: o legislativo, o executivo, o judiciário, o
comunicativo e o criminal. Tvs, rádios e jornais faziam muito mais que exercer
pressão política e moldar a mole opinião pública. E assim também com o crime
organizado. Os cinco poderes ainda existem, e se interpenetram de infinitas
formas, favorecendo a pulverização do estado.
“O que as pessoas não perceberam é que a informática vai muito além dos
aparelhos chamados computadores. Ela já estava em nossa sociedade, desde que
nos tornamos Homo sapiens sapiens
(doce ilusão, repetida para que se possa acreditar), ou talvez até antes,
talvez ela já esteja impregnada no próprio cosmos, ou caosmos, segundo Joyce e
os filósofos que citei. Mas ela se tornou manifesta desde o fim da Segunda
Guerra Mundial, a par daqueles eventos mirabolantes, mas também nas mais
mínimas práticas cotidianas. A informática não só dá padrões urbanos e sociais:
ela dá principalmente padrões mentais, que são assimilados por todos os
indivíduos do país Terra, independentemente de sua condição financeira ou
intelectual. Isto é, o computador, e o que está por trás dele, que é algo mais
sutil, mais abstrato, uma nova inteligência, está mudando a humanidade, a
maneira dela pensar, sua sociedade, e até a face física do planeta, coisa que o
homem já fazia antes, e que faz agora mais e melhor (ou pior, como quiserem) a fortiori.”
E seguiram os três, bebendo e conversando, pela madrugada.
Capítulo 16
Primeiro o filho Mauro viera com a Nora (era esse seu nome) e os netos de
Zeca, agora era a filha Josefina com seu marido e os cinco filhos. De repente,
o pequeno apartamento quarto e sala abrigava, além de Zeca dOlivares e sua
mulher Isidora, os filhos deles dois, Mauro e Josefina, e Gervásio, o seu
genro, e Nora a mulher de Mauro, todos muito exigentes, e suas oito crianças
irrequietas, insuportáveis, comilonas, barulhentas, sujas, malcriadas,
respondonas e cheias de vontades.
Zeca já não aguentava mais.
E a história do papagaio? Foi objeto de mofa de sua repentinamente
agigantada família, que fazia questão um por um de casquiná-lo, implacável, no
café, no almoço e no jantar. E todos sempre juntos: as crianças de férias na
escola, as mulheres donas de casa perfeitas (como se o fossem, como se o
houvesse, como se fosse mérito, como se alguém quisesse), os maridos
coincidente e concomitantemente desempregados, devido à crise econômica, à
dívida e(x)terna (quer dizer, a escravidão nacional e predatória), à
globalização, às taxas de juros, à importação, à exploração, à remessa ilegal
de lucros, à corrupção, à informatização do emprego, à robotização conspícua e
inexorável (de acordo com a ideologia vigente) da indústria e das pessoas (isto
é, trocaram robôs [que em tcheco ou outra língua eslava quer dizer trabalhador, como o radical em russo robot quer dizer trabalhar] de carne por outros de um material menos inflamável)
etc.
A gota d’água foi um dos netos apelidado Pimenta No Dos Outros, que
estava com um pé de cabra, tentando arrombar a sua gaveta secreta, pessoal e
intransferível, que até a Isidora (!) sempre tinha respeitado.
Pronto; não grita com o menino, não dá cascudo, quem o senhor pensa que é
(ele pensou e não falou: matriz genética vossa, quem paga todas as contas, quem
apagava os incêndios da cidade por trinta e cinco anos, apanágio da vossa
geração, quem criou um cocoon nesta casinha pra espantar pra longe os bichos
papões tão reais e proteger vocês sempre), vovô que qui tem naquela gaveta,
desembucha sogrão!
Uns tinham vindo para ficar dois dias, estavam há dois meses; outros, por
uma semana, estavam há sete.
Zeca decidiu. Sabia o que fazer.
Vestiu a camisa do seu Botafogo (ele que sempre fora bombeiro...), time
do coração, pegou a bandeira e foi pro velho Maraca, o seu querido Maracanã, em
dia de decisão de campeonato, tempo de tudo ou nada, torcer pro seu Fogão, no
meio da torcida do Flamengo.
Capítulo 17
Frederico estava muito triste, nem sabia direito por quê, bebendo
cerveja, num bar perto da universidade. Sozinho, ficava olhando o movimento das
pessoas que entravam e saíam, uns apressados sem olhar pros lados, como se o
mundo fosse uma gigantesca empresa de representações, outros indo com calma
para o bar, onde se sentavam e bebiam por horas a fio, pra espantar o frio ou
combater o calor, porque andavam solitários ou muito bem acompanhados.
Quando deu por si Nadine tinha se sentado a sua mesa.
“Oi.”
“Oi.”
Frederico reparou bem nela, de maneira pouco educada e evidente. Nadine
devia ter um metro e sessenta e pouco de altura, era muito magra, seios
definidos, bunda interessante, branca que não pega sol na praia até torrar (que
maravilha!), olhos verdes, cabelos castanhos claros, quase louros, cortados nem
curtos, cara de outsider de filme americano, jeito de filhinha de papai que tem
de tudo, que compra suas roupas de doidona na butique, que consome drogas
levadas em casa por alguém a quem paga o bastante, e que só vai a festas
embalada, levando presença. Que bebe pouco e finge que bebe muito, que estuda
violão com professor particular, e joga cartas pros amigos e charme pra todo
mundo, como todo mundo, mas que igualmente tem medo de amar.
Frederico falou tudo o que pensava pra ela.
“Vocês machões são muito ridículos. Por que uma mulher que gosta de
mulher ameaça tanto vocês? Eu não brigo com ninguém, não agredi você, nem beijo
a Lua pela rua ou nos lugares (que você sabe que seria meu direito, ninguém tem
nada a ver com isso), a Lua você deve conhecer, é a minha namorada, é, minha
namorada sim, o que que tem?”
“Calma! Desculpe dizer, mas você está sendo agressiva sim.”
“A hipocrisia masculina. Vocês são agressivos, e muito. Você sabe
como é para uma mulher andar pela rua, nos ônibus, em qualquer lugar? Qualquer
escroto acha que você tá doida pra sair com ele, te diz as coisas mais
nojentas, e se você reage, ou se tenta se esquivar, eles começam a te ofender,
a dizer que você é isso e aquilo. Como se mulher fosse uma coisa, que só está
ali esperando algum porra com esse negocinho escroto pendurado no meio das
pernas pra se entregar toda, tonta, como se tivesse encontrado algum semideus.
Vocês são uns macacos, isso sim. Eu até gosto de alguns homens como pessoas,
tenho amigos e pai, e os amo; mas não tenho vontade nenhuma de namorar e muito
menos de transar com um homem! E daí?”
“Daí nada.”
Ela se serviu da cerveja que ele lhe ofereceu com um gesto, ficaram os
dois bebendo em pequenos goles.
“Sabe por que eu me sentei aqui com você?”
“Nem tenho ideia.”
“Eu tava ali no balcão havia uns minutos já, e tava vendo você aí triste,
jururu, olhando pro céu, olhando pro chão, com cara de choro, fiquei com pena,
decidi parar um pouco pra conversar com você.”
“Muito obrigado”, meio irônico.
“O que você tem?”
“Sei lá. Angústia, não sei. Alguma coisa ontológica, tipo algum tipo de
filosofia, sacumé. Está tudo muito estranho, ficou tudo muito doido de
repente.”
“Problemas com a sua... como é mesmo o nome dela?”
“Cirila. Não. Tá tudo bem entre a gente, eu acho... Eu, eu não tenho
certeza.”
“Não sabe mais se gosta dela?”
“Hm..., é.”
Frederico se espantou de estar se abrindo assim com uma pessoa que ele
mal conhecia, e que tratara tão mal seu amável amigo, bem como a ele.
“Outro grilo é o czar, é assim que eu chamo o Ezequiel.”
“O seu amigo pirado?”
“Por que você tratou ele daquele jeito?”
“Ué, eu não fiz nada! Eu não sou obrigada a namorar alguém que eu não
quero, sou?”
“Não. Não se trata disso. Sei lá. Eu acho que eu nem tenho o direito de
estar falando isso, mas ele se apaixonou mesmo, de verdade, no duro, por você.”
“Sinto muito.”
“Ele é meio doido, quer dizer, ele é um gênio, e tem mil insights,
vislumbres, intuições; tanta voz na sua cabeça, misturada com a incompreensão
de gente burra e insensível, fazem com que ele tenha fama e ficha médica de
tantã.”
“Não sou burra nem insensível. Mas nem por isso sou obrigada a gostar
dele.”
“Para de fazer cu doce! Como você é sebosa!”
Nadine se levantou, ofendida.
“Você não tem o direito de me xingar, só porque o seu amiguinho é pinel!
Eu fui conversar com o cara, outro dia, na festa, e ele riu um riso alvar,
falou um monte de coisa sem sentido e caiu de borco no chão junto aos meus pés.
Agora, eu venho tentar fazer amizade com você, e você fica me agredindo
gratuitamente. Quer saber? Tô fora, seus escrotos! Passe bem.”
E saiu ventando.
Capítulo 18
Zeca dOlivares estava internado em um grande hospital do governo, todo
quebrado, tendo sido alvo da fúria futebolística do povaréu, e salvo, pela
polícia militar, de ser linchado no Maracanã.
Seu leito ficava em uma enorme enfermaria onde havia dezenas de outros
pacientes graves, cada um com um tipo diferente de problema, alguns
contagiosos.
Ficou lá esquecido um dia inteiro.
No outro, a mulher Isidora apareceu para visitá-lo, furiosa. Ele pensou
que ela estava assim irada devido a mais este seu gesto tresloucado; no
entanto, o motivo era bem outro.
Em meio aos gritos apocalípticos da consorte ele lograra compreender o que
se sucedera: em sua ausência, o neto Pimenta No Dos Outros conseguira arrombar
sua gaveta, e, encontrando espantado o seu conteúdo secreto, procurara o pai, o
qual foi falar e mostrar os artigos à mãe, incontinente. Agora a mãe do pai do
neto, que era a própria Isidora, berrava a plenos pulmões que ele era um velho
safado.
“Como você teve coragem de colocar essas coisas dentro do seu lar
sagrado, comigo ali por perto, seu velho escroto?”
Ela gritava, a plateia rugia de rir, e Zeca chorava mansamente, cheio de
vergonha.
Ela foi embora, depois de jogar tudo em cima dele, e de dizer que nunca
mais queria vê-lo, e que ele deveria se esquecer de que tinha uma mulher e uma
família, já que nunca as respeitara.
E foi pra casa chorar as mágoas com a filha e a Nora.
À noite, já assistia plácida aos programas da tv, esquecida do que
acontecera, pronta para perdoar mais esta água fora da bacia do marido.
Só que ela não sabia era que enquanto ela assistia à novela, dois
capangas do Dr. Lucas da Silva Morioni invadiram a enfermaria abandonada do
hospital público, e raptaram Zeca dOlivares, para que o ilustre cientista
pudesse utilizá-lo em mais uma de suas inimagináveis experimentações.
Capítulo 19
Frederico só, deitado em seu quarto, em casa, a luz apagada, pensava na
vida. Estava com um monte de trabalhos atrasados na faculdade, tinha faltado a
inúmeras aulas e perdido duas provas, já. Seu amigo parecia cada vez mais
distante da realidade, só não sabia a qual dos três amigos e a qual das
realidades especificamente ele estava se referindo. Cirila andava furiosa com
ele, achando que ele não ligava mais pra ela, só queria saber de ler poetas
antigos (pra ela qualquer poeta que ela não conhecesse era “poeta antigo”) e
filósofos contemporâneos, e só queria conversar com seus colegas panacas.
Ele, sozinho no escuro, deitado, não precisava esconder nada de ninguém,
e tinha coragem de ser sincero consigo mesmo, e de assumir seus verdadeiros
sentimentos, essa paixão repentina com calda de sentimento de culpa, essa fome
danada e sem esperança de se saciar: Nadine.
A mãe bateu na porta. Ismênio viera vê-lo (e Frederico achou isso
estranho): estava agitado, e lhe contou rapidamente que pegara seu carro e
viera até ali, porque precisava falar com ele, com urgência.
“Não sei como, mas o Ezequiel conseguiu entrar na rede, encontrar meu
endereço e me mandar essa mensagem: ‘Ismênio, sei de quase tudo sobre Morioni,
pois estou em rapport telepático com ele, contra a minha vontade. Sei que ele
pretende me raptar hoje à noite, e por isso estou te mandando estas
informações, que você deve levar urgentemente ao Fred, que, por sua vez, saberá
o que fazer. O Dr. Loucus da Silva Morioni está trabalhando em um aparelho que
capta cenas do passado e do futuro, e precisa utilizar seres humanos no dispositivo,
em acoplagem cibernética. As pessoas assim utilizadas não mais voltam a ser
normais. Ele se esconde em uma mansão isolada, perto de Petrópolis, e utiliza o
nome falso de Dr. Evilásio Pantoja, especialista em plantas e insetos
tropicais. É tudo que sei, sondar esses fatos é muito difícil e doloroso, e ele
está consciente de nossa ligação, considera-me uma peça preciosa para seu
aparelho, e já está a caminho daqui. É tudo. Por favor, me ajudem!’ Só isso.
Assim que imprimi o texto, vim correndo te ver. Você acha que ele enlouqueceu
de vez? Como ele entrou na rede?”
Frederico estava nervoso, confuso. Também não sabia o que fazer agora,
sentia uma espécie de medo primal desse nome, desse homem: Pantoja/Morioni. No
entanto todos esperavam dele alguma atitude, tinha sido nele que o czar
pensara. Tinha que ter presença de espírito.
“Me espere enquanto me visto.”
Três minutos depois passava correndo pela sala e gritando:
“Vamos! Me leve até a casa do czar. Precisamos contar tudo ao pai dele.”
Capítulo 20
Laio bateu na porta do casebre. Pato Doido, que lhe servira de guia
remunerado, já se evadira, morro abaixo.
De dentro veio a voz profunda de Vulcão Lunático:
“Entre, Lyáios Theóphoros.”
Entrou, viu o gigante de pé, no meio da sala, olhando-o em silêncio.
“Vim pedir sua ajuda de novo...”
“A mulher?”
“Me ama, espera um filho meu.”
“Que mais você quer?”
“Desde que fui à terra dos cogumelos gigantes, tenho tido visões de um
planeta de céu rosado e dois sóis envolvidos por uma espiral. Vejo outras
coisas também, que eu não entendo e não consigo descrever. E esse nome fica o
tempo todo sendo sussurrado em meu ouvido: Loucus da Silva Morioni. Você sabe o
que é isso tudo?”
“Sei. Mas você vai ter que descobrir por si mesmo.”
“Você não pode me ajudar?”
“Eu posso te ajudar a se ajudar.”
Vulcão pegou uma garrafa sobre a mesa, e derramou o líquido azul que ela
continha em uma taça, que estendeu a Lyáios.
“Beba.”
Lyáios tomou todo o líquido, de sabor mentolado. Aos poucos as imagens à
sua volta foram desaparecendo, e ele se sentiu desmaiar.
Acordou em um enorme campo aberto. À sua frente, a entrada de um
labirinto; depois do labirinto, uma grande montanha azul. De algum jeito ele
sabia o que devia fazer. Entrou no labirinto.
Capítulo 21
Dentro do Monza do Ismênio (que os quatro chamavam, brincando, de
Ismêniomóvel, assim como ao seu apartamento apelidaram de Ismêniocaverna, e
também falavam em Ismêniocomputador etc.), os dois discutiam enquanto “voavam”
para a delegacia onde trabalhava o Detetive Gilberto, pai de Ezequiel.
A mãe deste tinha vindo atender à porta com os olhos cheios de sono e de
susto, e informara-lhe que o marido estava dando plantão, e dissera em que
distrito, e eles disfarçaram, declarando ser um problema particular de Ismênio
que os levava a procurá-lo, nada grave, deixa pra lá, boa noite, Dona Graça.
“Eu te digo que o Ezequiel é normal como nós. Ele não está inventando
nada, tudo que ele diz é verdade!”
Ismênio fez um muxoxo descrente, abriu o porta-luvas e, ao mesmo tempo em
que guiava em alta velocidade, puxou de lá de dentro um livro, que colocou na
página 11 e entregou a Frederico.
“Eu até comprei este livro pra ver se descobria qual era o nome da
loucura do Ezequiel. Isto é, o nome da patologia psíquica de que ele é vítima.
Fiquei na dúvida entre duas. Primeiro, pensei que fosse a paranóia, leia
aí pra mim a definição.”
Frederico pegou o livro e olhou a capa, tratava-se de Doença Mental e Psicologia de Michel
Foucault. Fez o que o outro pedia:
A paranóia: num fundo de exaltação (orgulho,
ciúme), e de hiperatividade psicológica, vê-se desenvolver-se um delírio
sistematizado, coerente, sem alucinação, cristalizando numa unidade
pseudo-lógica temas de grandeza, perseguição e reivindicação.
“Foucault se baseia nos clássicos da psicologia, principalmente Dupré em
sua obra La Constituition Emotive.
Como eu disse, antes achei que Ezequiel fosse paranóico. Mas depois de ler e
meditar bastante, cheguei à conclusão de que ele é hebefrênico. Leia o trecho
referente, por favor.”
Frederico leu:
A hebefrenia, psicose da adolescência, é
classicamente definida por uma excitação intelectual e motora (tagarelice,
neologismos, trocadilhos; maneirismo e impulsos), por alucinações e um delírio
desordenado, cujo polimorfismo empobrece paulatinamente.
“Viu? A descrição é um retrato
perfeito de Ezequiel!”
“Que absurdo! E se o que ele diz for verdade?”
“Irrelevante! O que importa são os sintomas que ele apresenta, todos:
excitação intelectual e motora, tagarelice, neologismos, trocadilhos, maneirismo,
alucinações e delírio desordenado.”
“Mas se é assim, você teria que diagnosticar como hebefrênicos boa parte
dos escritores, de Homero a Joyce, passando por Rabelais, Sterne, Novalis e
Dostoiévski! Eu mesmo estaria dentro de sua classificação.”
“E quem foi que disse que essa alegre galeria por você evocada, e até
você mesmo, não são também hebefrênicos?”
Frederico quis responder, mas ficou mudo de raiva.
“Isso se não forem coisas piores!”
Ismênio riu, pediu calma, declarou que estava só brincando, implicando
com ele, pra aliviar a tensão.
“Você não é médico, nem psicólogo.”
“Nem você.”
“Mas o czar entrou na rede! Morioni existe! E se ele o raptar?”
“Os fatos objetivos considerados isoladamente não provam nada, o que
define Ezequiel como um patológico são os liames que ele estabelece
entre esses fatos, e a interpretação subjacente que deles faz.”
“Mas isso torna tudo uma questão acadêmica, que em nada influi.”
“Concordo.”
Era um longo trajeto, da Vila das Famílias até o centro. Ismênio dirigia
com perícia e grande velocidade.
“E as multas?”
“Eu pago.”
Frederico olhava o asfalto molhado, brilhante, refletindo lâmpadas de
mercúrio, Vênus e Marte visíveis no céu, e a enorme e opalescente Lua.
Lembrou-se de Nadine, sentiu vontade de vê-la, de beijar seus lábios finos e
bem desenhados, onde ela tinha uma sardinha, no lábio superior.
“Como demora.”
“É rápido.”
Frederico sentiu algo estranho de repente, passando por tantas ruas da
zona norte, no carro que viera da Gávea (onde estaria Nadine?), e que agora ia
para o centro da cidade.
“Engraçado, você fala tanto em rede... As ruas são uma rede, um fio
enorme que se dobra e redobra, numa trama gigantesca, pela cidade, pelo mundo.”
“A teia para a aranha, o ninho para o pássaro, a amizade para o homem,
disse Blake. Mas o homem também faz sua teia de neurônios, de chips, de fios
telefônicos, de eletricidade, de ondas de rádio, de águas, de ruas, de relações
(voltamos a ele)...”
“Não sei, às vezes, pode ser. Mas eu penso que a coisa não é binária, ela
é muito mais complicada, existem infindáveis modos de ser, aranha, mosca,
vento, homem, gota de orvalho, rio, mar, raio de sol... e o ser humano encarna
todos esses devires. O homem é teatro, e também é filme. A rede é de neurônios,
de afetos, mas é também rede de lutas.”
“Tipo Dr. Morioni.”
“Morioni é colega de Caligari e Strangelove, é fantástico; a luta de hoje
é entre o estado enquanto unificação da rede e os guerrilheiros da informação.”
“Hackers.”
“Também. E pirataria e espionagem e maníacos e softmakers e poetas e
escritores e pornógrafos e atores e políticos e ricos e pensadores nômades... É
uma selva. Mas depois a gente fala sobre isso.”
Capítulo 22
Chegaram à delegacia.
O detetive Gilberto conversava com um mendigo velho, quando os dois
chegaram e pediram para vê-lo.
“Oi, Fred, Ismênio, o que houve?”
“O Ezequiel me mandou esta mensagem pelo computador.”
O detetive leu rapidamente.
“Nós achamos que é tudo imaginação, mas...”
“Ele acha. Eu penso que Ezequiel fala a verdade.”
“Imaginação? Morioni existe mesmo, é tremendamente perigoso. E foi
Zequinha quem chamou a nossa atenção para ele. No início eu também não
acreditei, mas procedi a uma investigação, só para agradar a meu filho. E
descobri que ele estava certo. Vocês estão vendo aquele velho meio abobalhado? Ele
é um vizinho nosso lá da Vila das Famílias chamado Zeca dOlivares, que Morioni
raptou há um mês atrás para usá-lo em suas experiências, e que ontem foi
abandonado no centro, nesse estado. Não consegue lembrar de quase nada, não
fala direito, e apresenta perfurações sob as orelhas, nas axilas e na virilha.”
“Nós precisamos fazer alguma coisa.”
“Deixem que eu vou tomar providências. Primeiro vou telefonar para a
clínica onde Ezequiel está internado.”
Momentos depois ele voltava.
“O Zequinha foi raptado há meia hora atrás. Eles estavam tentando entrar
em contato comigo.”
“E agora?”
“Vou me comunicar com o delegado e pedir um contingente policial para
atacar o esconderijo de Morioni. Sabemos que fica perto de Petrópolis, onde
vamos procurar por um homem estranho e recluso, conhecido como Dr. Evilásio
Pantoja, que mora em um casarão.”
“Nós podemos ir junto?”
Gilberto pensou por uns instantes.
“Podem. Mas vocês têm que ficar na viatura como observadores, sem se
envolver na ação.”
Quando estavam saindo entraram dois pms, conduzindo um crioulo com cabelo
black power e todo cheio de balangandãs.
“Pato Doido. Você por aqui?”
“Boa noite, seu doutor.”
“Ele foi flagrado com duas trouxinhas e três sacolés, detetive.”
“Eu sou viciado, doutor! Tenha pena de um pobre preto velho!”
Gilberto teria rido, se pudesse. Chamou o escrivão:
“Autua. Porte de drogas. Usuário.”
“Muito obrigado, doutor.”
Ainda para o escrivão:
“Encaminhe o Zeca dOlivares para exame de corpo de delito e depois para
um hospital. E mande avisar a família dele, neste endereço.”
Estendeu um pedaço de papel.
“Agora vamos atrás do filho da puta do Morioni.”
Os carros arrancaram velozes com suas sirenes gritando estridentes
mordendo forte os edifícios e as casas dormindo medrosas na noite.
Capítulo 23
Parece que tudo o que vinha das drogas de Vulcão Lunático eram provas de
lutas contra monstros fabulosos. Dentro do labirinto, depois de ficar durante
horas e mais horas perambulando, perdido, pelos corredores, todos iguais,
Lyáios Theóphoros deparou-se com um minotauro que o quis devorar. Lutaram
muito, até o homem vencer a fera, nem sabia como. Quando o corpo inatural caiu
desfalecido ao chão, ouviram-se trovões assustadores, o céu enegreceu
rapidamente, e se manteve assim, cortado apenas, às vezes, por brilhantísssimos
relâmpagos, que iluminavam para Lyáios as paredes dos corredores sem fim, todos
iguais, pelos quais persistia em tentar avançar.
Também não percebeu o modo pelo qual encontrou a saída, mas o dia
amanhecia esplendoroso, e ele se viu fora do labirinto, em frente à montanha
azul.
Sentia fome, frio, sede e cansaço, muito, mas sabia que ainda haveria
outras provas. Iniciou a escalada.
Levou o dia inteiro subindo pelo meio da vegetação, que de vez em quando
explodia, devido a raios que caíam sempre perto demais, tentando atingi-lo.
Ao cair da tarde chegou ao alto da montanha, onde havia um castelo todo
de ouro, no meio de uma clareira. À sua frente, postavam-se três cavaleiros
vestidos com armaduras de prata e segurando cada um um escudo de bronze.
O primeiro portava uma espada, o segundo uma clava, e o terceiro um
chicote de armas.
Lyáios Theóphoros foi até um dos três cavalos amarrados ali perto, e
tomou de uma acha, que estava presa a uma das selas.
Lutou bravamente, sendo atingido no ombro pela espada, um corte não muito
profundo, e na virilha um golpe do chicote de armas que quase o fez desmaiar de
dor.
Em resposta, quebrou-lhe a corrente e atingiu a joelheira do terceiro
cavaleiro, que caiu ao chão.
Ao segundo acertou com um golpe tremendo na couraça, deixando-o também
prostrado.
E quanto ao primeiro, Lyáios esmigalhou com a acha a viseira de seu elmo.
Após vencê-los, correu a olhar seus rostos; as armaduras estavam vazias.
Lyáios entrou no castelo.
Viu-se em um aposento de incríveis proporções, em meio ao qual havia
gigantesco dragão soltando fogo e fumo pela boca de ferro; os olhos, lâmpadas
ferozes.
Percebeu que o monstro era na verdade um robô.
Correu a sua volta, fugindo das labaredas e cortando correias e
engrenagens aqui e ali, com o machado.
Aí o monstro parou.
E, de dentro dele, saiu um homenzinho minúsculo, velho e careca.
“Quem é você?”
“Eu sou o Dr. Lucas da Silva Morioni. Eu sou você.”
Capítulo 24
Ezequiel voltou a si devagar, abriu os olhos e foi focalizando aos
poucos.
À sua frente um sujeito de um metro e cinquenta de altura, idoso, vivaz,
glabro, calvo, alvo, magro; olhos glaucos e cândidos, sorrindo.
“Dr. Morioni!”
“Muito prazer, Ezequiel Mongóis. Finalmente nos encontramos. Sabe, eu
sinto como se já nos conhecêssemos há muito tempo.”
O jovem se inquietou com o absurdo e deslocado tom de bondade na voz do
antigo cientista; tentou mover-se, apenas para perceber que tinha sido
fixamente preso em pé, meio inclinado, a uma desconhecida estrutura de aço,
fios e lâmpadas acesas.
“O que é isso? Onde estou? O que você quer?”
“Você não sabe?!”
“Usar-me em sua máquina...?”
“Dei-lhe o nome de psicaptor aiônico. Coloco este visor e posso
testemunhar cenas do presente, do passado e do futuro, e dos passados,
presentes e futuros alternativos daqui e de alhures. Não obstante há um
problema: é necessário utilizar um ser humano como alto poder de PES (percepção
extra-sensorial), que deve funcionar como antena para a máquina. É uma
peça-chave, cara, difícil e de pouca durabilidade. Você sabe, os neurônios da
PESsoa utilizada aguentam apenas cerca de um mês...”
“Por quê?”
“Isso não importa! Veja esta outra invenção maravilhosa. Eu a chamo de
transbudificador anímico. Com ela eu posso alterar profundamente a estrutura da
psique e dos corpos sutis de qualquer ser vivo. A partir disto eu fabricarei
gente, homens, mulheres, do jeito que eu quiser.”
Os olhos do cientista soltavam chispas, brilhando com o estranho ardor da
loucura.
“Com ele eu farei uma humanidade muito melhor, uma raça de seres
angelicais, libertos de sua metade animal, de sua alma animal, como quer você.
Eu montarei as pessoas como delicados chips, quebra-cabeças animados, e as
peças me serão fornecidas por elas próprias; o meu trabalho será o de
redistribui-las, organizá-las, incutir-lhes razão e amor à razão. Você irá
adorar, Ezequiel. Esta modesta estrutura que ora você vislumbra é o início da
grandiosa Fantástica Fábrica de Seres Humanos de Lyáios Theóphoros. Este será o
novo nome que adotarei.”
“Pare com toda essa loucura, eu nunca ouvi tanta imbecilidade.”
“Você verá se tenho ou não razão.”
“Mas você não tem esse direito!!!”
“NÃO ME VENHA FALAR EM DIREITO.”
Ezequiel sentiu que tinha pontas de aço cravadas em sua carne, sob as
orelhas, nas axilas e nas virilhas, seis ao todo.
“O que você vai fazer comigo?”
“Você é um poderoso telepata. Eu o usarei como a nova antena de meu
psicaptor aiônico.”
“Morioni! Não seja louco! Deixe-me sair daqui!”
Indiferente aos gritos do jovem, o Dr. Loucus da Silva Morioni ligou a
chave do psicaptor.
Imediatamente Ezequiel sentiu um choque, uma explosão, um clarão.
Invadiam seu ser de uma forma total.
Sensações múltiplas de dor e prazer como nunca outro ser já sentiu.
Ele via e ouvia TUDO.
Capítulo 25
Através do visor especial ajustado aos olhos Morioni também via tudo o
que a antena humana do psicaptor anímico sintonizava.
Em poucos minutos eles viram o átomo primordial, a sua precipitação em
contração máxima e a sucessiva explosão. Toda a luz, toda a energia e toda a matéria
foram criadas então e começaram a se irradiar rapidamente para todos os lados.
Ezequiel/Morioni viu a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano
10000.
Ruas desertas, alguns poucos pedestres, pequenos e carecas, pareciam-se
com o cientista, tanto homens quanto mulheres, Ezequiel/Morioni sentiu
repugnância/felicidade com a visão dos homenzinhos.
Quando queriam utilizar veículos de transporte ou comunicação, desciam
por escadas rolantes ao subsolo, onde carros elétricos e/ou solares deslizavam
rápidos e silenciosos, limpos e gratuitos. No subsolo também havia teletelas,
lojas e serviços. Na superfície, apenas calçadas para passeios, árvores e
flores, e casas residenciais grandes, em forma de caracol, com receptores de
energia solar nos tetos, e comunicação interna com sua parte correspondente ao
subsolo. Algumas árvores factícias eram captadores de energia solar, que era
enviada ao subsolo, para realizar os serviços da cidade.
Ezequiel/Morioni sentiu saudade do barulho, da agitação, da fumaça do trânsito
caótico da atualidade, das multidões.
As imagens de diferentes tempos se sobrepunham, causando grande stress
cognitivo e emocional.
Viu o passado, um passado desconhecido da história, quando a Terra era
habitada por uma humanidade de criaturas meio homens meio répteis, com a altura
de dez metros em média, super inteligentes e longevos.
E cenas de nossa história conhecida, que era como que desconhecida, de
tão diferente de tudo o que ouvimos e sabemos a respeito.
Viu cenas de outros planetas, os antigos marcianos (que invadiram a Terra
e aculturaram os evoluídos terráqueos da época, já então Homo sapiens sapiens), o fim da civilização marciana e suas
colossais construções que a Terra tentava humildemente reproduzir, uma
comunicação de pedras, como o rosto visível da Terra e esculpido na rocha de
Marte e que representava a consciência da unidade planetária e o poderio e a
super-visão do Império Marciano (o nome era usado por eles mesmos e foi
adaptado ao nosso idioma sânscrito escrito em alfabeto devanagari importado, do
qual derivaram todos os outros, quando a unificação colonial ruiu e cada povo
começou a praticar o idioma de maneira diferente dos outros; os subpovos então
formados tentavam imitar o imperialismo do outro planeta, e assim surgiram os impérios,
especialmente o romano, onde os imperadores, assim como Rômulo e Remo, eram
considerados filhos de Marte. No caso dos dois fundadores, eles eram humanos
filhos de humanos, mas nascidos em solo marciano, e vindos de lá, na qualidade
de funcionários imperiais).
Viu a futura colonização do sistema solar pelo novo povo da Terra; viu os
habitantes e as civilizações de centenas de outros planetas de nossa galáxia,
viu que todas as galáxias eram igualmente superpovoadas, e viu o povo estranho
dos planetas de Alfa Centauri, e a Liga de Aldebarã; e até o duplo sol que
iluminava o céu rosado de DurBuk em Beta Lyrae, onde ele viria a conhecer sua
querida Ith.
Ezequiel/Morioni viu seu próprio futuro e tudo o que iria acontecer com
ele, em uma rama que entrelaçava e misturava suas vidas e suas almas tão
diferentes.
E viu um diamante gigante nas entranhas da terra & um cabelo boiando
na água da privada de um banheiro de bar onde um homem maduro se drogava com
uma seringa jogado num canto no chão & o alfa e o ômega e o álef e o shin e
o alfabeto devanagari e o cirílico e o katakana/hiragana/kanji e ideogramas e
hieróglifos & a biblioteca lotérica da Babilônia e a Torre de Papel e todos
os escritos de Borges & uma molécula de água caindo na chuva indo para o
rio indo para a rede e para a caixa d’água de um edifício e para um filtro
residencial e para um copo e dali para a boca e percorrendo o corpo de um
indivíduo e depois saindo na urina indo para o vaso sanitário e para o esgoto e
para o mar e sendo evaporado e se tornando gotícula de água suspensa e essa
molécula dentro dele e dias e dias depois se precipitando numa nova chuva &
os milhares e milhares de alienígenas de diferentes planetas que vivem
disfarçados no meio de nós e passam por terráqueos & o pensamento erótico
com os seios enormes de uma mulher linda nua na revista aberta na banca de
jornais que um lixeiro de uma grande cidade teve & toda a usina desvairada
e precisa de uma adolescente jogando videogame e fazendo bilhões de cálculos
por segundo enquanto sua mãe fala bem devagar menina larga essa porcaria vai
ficar estúpida vai fazer o dever de matemática equação de primeiro grau que a
professora idem passou para você fazer em casa & a vida nascente na rede de
informática que ninguém detecta mas que os computadores sabem que existe e que
se desenvolve e que se comunica e que os homens não reconhecem ainda porque é
uma nova forma de vida totalmente inaudita que a nossa mentalidade nem sabe
ainda conceber & a fraude eleitoral de novo perpetrada nas eleições gerais
de um republiqueta da América Latina & os olhos de um gato na Índia & a
unha de um velho em Liverpool um cocô nas ruas de Nova Iorque & uma
plantinha nova que nasceu...
Viu mais coisas...
Ezequiel/Morioni morria e gemia, gozava.
De repente viu muitos policiais nas proximidades, procurando por ele,
indagando, investigando, chegando muito perto...
Morioni saiu do psicaptor preocupado e foi avisar seus capangas.
Voltou à sala onde ficavam suas máquinas celibatárias para ponderar sobre
a defesa que tomaria contra o ataque iminente.
Pensou muito nos poucos minutos que se seguiram, e resolveu que tentaria
um grande lance, uma ousadia inominável, do tipo tudo ou nada.
Chamou Bário, o chefe da segurança, e trocou algumas palavras com ele.
“Mas o senhor tem certeza?”
“Claro! Quando ataque começar, você venha pra cá e me avise. Eu vou ligar
a máquina. Me dê um minuto, exatamente um minuto, e depois atire. Bem ali. Não
vá errar!”
“Está bem, farei como o senhor quiser.”
“Eu conto com você.”
“Pode contar sim, doutor”, respondeu o fiel Bário.
Lucas pensou que era uma pena que o invisibilizador total ainda estivesse
no projeto.
Muita coisa poderia ser salva se ele pudesse contar com aquele recurso,
deveria ter sido mais previdente e realizado com prioridade este importante
invento.
Capítulo 26
O detetive Gilberto conseguira um bom reforço para o ataque ao bunker de
Morioni. Eram vários carros da polícia, com cerca de trinta homens.
Ao seu lado, Frederico e Ismênio, comprometidos a permanecer no carro
como observadores, e a não participar de nada, não interferir nem atrapalhar.
Tocaram a campainha, bateram, chamaram. Ninguém atendeu.
Dentro da casa reinava o silêncio e o escuro.
No entanto, vários informantes lhes haviam garantido que era ali mesmo
que morava Pantoja.
Munidos de mandato de prisão, os policiais arrombaram o portão e se
encaminharam para a porta da frente da casa, onde tornaram a chamar com
insistência. Como não houvesse resposta ainda desta vez, abriram a porta com a
chave-mestra e entraram.
Viram-se em um labirinto de paredes berrantemente coloridas, nas quais
estavam gravadas imagens de todo o tipo, e onde se ouviam incessantemente os
mais variados sons, melodias, ruídos, rugidos, palavras soltas sussurradas ou
berradas, uma algaravia insuportável que parecia emanar das paredes.
Caminharam durante horas, sem parar, e estavam quase desvairados de
cansaço e confusão, quando conseguiram encontrar a saída.
Esta dava para uma sala cheia de robôs enormes imóveis como estátuas.
Quando começaram a se mover entre os robôs, estes os atacaram com disparos de
raios laser.
Alguns dos homens conseguiram ainda ultrapassar o novo obstáculo,
chegando a um outro cômodo, onde foram recebidos a bala pelos seguranças do
cientista.
Seguiu-se um longo tiroteio, mas, aos poucos, a polícia foi levando a
melhor.
Quando percebeu a derrota iminente, Bário correu para o laboratório de
seu patrão, e trancou a porta.
No mesmo momento, do outro lado, os policiais iniciaram os esforços para
arrombá-la.
Morioni, vendo tudo aquilo, entrou em uma espécie de cabine que havia em
seu transbudificador anímico, feita especialmente para acomodar um homem. Ainda
lembrou a seu assistente que ele deveria esperar um minuto e depois atirar com
precisão no local previamente indicado pelo grande cientista.
Bário chorou, comovido, reiterando sua infinita estima e lealdade ao
patrão.
Morioni ligou o transbudificador anímico, ajustou a programação para
teletransporte energético e inseriu as coordenadas de distante país europeu.
Colocou-se em posição e começou a desaparecer.
Bário esperou exatamente um minuto, sessenta longos segundos, em câmara
lenta, enquanto as portas de aço do laboratório eram forçadas, e estavam quase
cedendo.
Quando o ponteiro do relógio marcava que o tempo determinado havia
transcorrido várias coisas aconteceram concomitantemente: Morioni desapareceu
no ar, Bário descarregou o tambor de sua arma sobre os controles do
transbudificador, desencadeando uma explosão e um incêndio no laboratório, os
policiais entraram e, ao verem Bário atirando, e supondo que os disparos se
dirigissem contra eles, reagiram, matando o fiel servidor do sábio.
Descobriram então Ezequiel preso a circuitos, soltaram-no e escaparam,
levando o rapaz desacordado, do fogo que num átimo já começava a consumir a
casa inteira.
Morioni planejava fugir de corpo inteiro para a Europa, e queria que seu
empregado destruísse todas as provas e inventos que ficassem para trás, pois,
além de tudo, ele não queria ser roubado em suas ideias, e levava tudo em sua
poderosa mente.
Mas a destruição do transbudificador anímico enquanto o teletransporte
estava se efetuando afetou o processo de uma forma que o Dr. Lucas não previra,
frustrando os planos do gênio, que foi voltar a si em um local que ele jamais
imaginara visitar, apesar de que, de certa maneira, ele já soubesse de tudo o
que iria acontecer, subliminarmente, não porque fosse destino, porém devido à
visão mesclada do tempo complicado que ele tivera antes, nesse mesmo dia.
Capítulo 27
Ismênio chegou ao sanatório e declarou que gostaria de visitar Ezequiel
Mongóis. Foi encaminhado a um grande jardim, com muitas árvores, bancos,
laguinho etc. Ali os pacientes passeavam, a sós ou acompanhados de outros
internos ou de visitas. Alguns comiam, outros fumavam; havia os que jogavam,
também. Tudo parecia muito calmo, um “paraíso relativo” (esta expressão era um
título que às vezes Ezequiel dizia haver atribuído a sua famosa obra
ininterrupta), o possível, para os pobres habitantes da loucura, pelo menos
naquele momento.
Viu ao longe o amigo sentado sozinho, balançando a cabeça devagar, e
olhando para algum ponto indefinido, ao longe.
“Oi czar, tudo bem com você?”
Ezequiel olhou-o um tempo enorme, sem nada falar.
“Ismênio, cara, é você mesmo... ou um holograma?”
“Sou uma imagem e sou real. Segundo Bergson, você sabe, a matéria é um
conjunto de imagens.”
“O tempo é uma sobreposição alucinante de visões e sons...”
A resposta não estava bem em concordância com a pilhéria de Ismênio, mas
havia uma certa ressonância. Talvez ele estivesse se referindo à traumática
experiência com o tal psicaptor anímico.”
“Como foi?”
“Não quero falar, não quero falar, não quero falar, não quero
falar!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Entendeu???????????????????????????????????????”
Tentou acalmá-lo, comentando amenidades, fofocando sobre José de Alencar
e Iracema, sobre Frederico e Cirila, sobre ele mesmo e Marcele (até neste
assunto ele teve o desplante de tocar para tentar amenizar o companheiro!), e,
tolo, insensato, arrependeu-se assim que falou em Nadine...
Mas Ezequiel mostrou um total desinteresse. Disse que respeitava a opção
sexual da moça (e até que na próxima passeata de orgulho gay de que ela
participasse, com a adesão de GLS, gays lésbicas e simpatizantes, ele iria, na
condição de simpatizante, evidentemente), que tudo fora uma fantasia dele
mesmo, que havia tanta coisa mais importante para pensar e que sexo não era uma
coisa tão fundamental assim...
“O amor é.”
“Aquilo não era amor. A gente (eu, você, ela, todos nós) não sabe o que é
amor.”
“Você ainda vai encontrar a garota certa, você vai ver. E vai voltar prà
Faculdade de Filosofia!”
“Não sei, vamos ver, vamos ver...”
Capítulo 28
ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE
“Que diabos é isso?”, perguntou azucrinada Dona Isidora, diante da frase
escrita com colorjet em enormes letras azuis na parede de seu apartamento.
“Picharam aqui dentro de casa!”
Zeca dOlivares ficou calado, olhando. Ainda se sentia fraco, confuso,
medroso, não tinha vontade de falar nem de fazer nada. A experiência do
psicaptor era difícil de esquecer.
“No quarto, no banheiro, na cozinha... a casa está toda pichada!”
Isso não tinha importância. Nada mais tinha importância.
“E sempre a mesma frase cretina: ‘Zeca dOlivares provoca tempestade’. Que
basbaquice é essa? Você por acaso provoca tempestade?”
“Eu... bem... hm... quer dizer... eu acho que, já, já provoquei.”
“Você provocou tempestade?”
“Quando estava no psi... no psica-ca-ptor, sim. Fiz.”
E maremoto, terremoto, furacão, vulcão e meteoro, mas dava muito trabalho
agora pra falar.
Estavam chegando do hospital, depois de muitos dias de internação ele
fora considerado bom, tanto física quanto mentalmente,. Mas ele se sentia
estranho...
“Bosta de touro!”
“Ahn?!”
Zeca não entendia.
“Você é muito ignorante, marido. Estou estudando inglês.”
As pazes feitas, os deslizes olvidados, o homem recuperado, o bandido
eliminado, tudo estaria perfeito, não fosse algum dos netos salafrários pichar
assim as brancas paredes do seu ap.
Nora, a mãe de Pimenta No Dos Outros, veio do quarto trazendo o próprio
pregado pela orelha, que ela puxava com dor e sem dó, arrastando-o atrás de si.
“Foi essa peste Dona Isidora. Já tô surrando ele.”
“Vai apagar! Vocês vão pagar!”
“Ele primeiro começou debochando do avô por causa daqueles... bom,
imbecilidade do Pimenta. Eu bati nele. Depois ele virou o jogo, começou a dizer
que o avô era herói, e tal, e saiu escrevendo essa merda em toda parte. Diz que
o avô dele é um ser da Nova Era, o hermafrodita, o visionário, que esteve no
inferno e viu o diabo, que já mudou o tempo, que provoca cheia e seca, maremoto
e calmaria, e que saiu no Jornal Nacional.”
“Essa última parte eu sei que é verdade, o resto é tudo invenção!”
Zeca não tugia nem mugia.
Pimenta olhava pra ele com olhos submissos, de fanático.
De noite iria sair com a gang a pichar toda a cidade com a frase:
ZECA DOLIVARES PROVOCA TEMPESTADE
O velho homem virou mesmo herói de toda a meninada.
Capítulo 29
Paralelas correm todas
Umas mais do que as outras
Lucas Morioni tentou abrir os olhos, mas não conseguiu.
A frase sem nexo ficava sempre voltando. Tentou mover-se, não sentiu
nada. Queria fazer alguma coisa. Parecia que estava congelado, longe, fora de
si. Onde ele estava? Começou a lembrar... sua infância, a adolescência, o
interesse despertado pelas pesquisas, a faculdade, a carreira de médico e
cientista, as experiências com a destemporalização da matéria viva, a
perseguição da polícia, o anonimato obrigatório, sorriria se pudesse, tanta
gente caiu na clandestinidade nos anos 70, e ele também, mas por motivos
absolutamente desiguais, a adoção da falsa identidade de Dr. Evilásio Pantoja,
até diploma ele comprou com o novo nome junto a um falsificador batuta, o
reinício dos trabalhos, clonagens, cibernética, robótica, engenharia molecular,
não havia nada que sua inteligência privilegiada não lhe outorgasse, o
psicaptor, a necessidade de utilizar antenas humanas, a captura de Blingol,
Wreb, Zeca dOlivares e do excelente Ezequiel, os dois se descobriram telepática
e concomitantemente, o ataque da polícia, a fuga para a Europa via
transbudificador anímico... era isso! Ele fugira. Se tudo dera certo, agora
deveria estar em Genebra. De hoje em diante ele iniciaria as mais arrojadas
experiências, utilizando um novo nome cheio de significância: Lyáios
Theóphoros.
Fez força para tentar tomar pé da situação, e, de repente, percebeu que
estava conseguindo divisar a luz e algo do que havia ao redor.
Aos poucos foi distinguindo as coisas, e percebendo que não estava
realmente em Genebra, na Suíça, na Europa, na Terra.
Vislumbrou, por exemplo, uma abertura oval na estrutura onde se abrigava:
via o céu cor-de-rosa lá fora, e via um duplo sol, um grande e azul, abraçado a
outro, menor e amarelo, cercados por uma espiral vermelha, que se movia
lentamente em torno dos dois sóis, e que ocupava todo o céu do planeta.
Lembrou-se das visões do psicaptor, lembrou-se de um poema que ele vivia a
escrever no futuro, já de volta à Terra:
Minha amada ideal em Beta-Lyrae/Vive a 4.100 anos-luz de nosso sol!/Naquele
ameno planeta iluminado/Por uma estrela dupla, azul e amarela/Um celeste
amor/Pra sempre abraçadas/E protegidas pela espiral de hidrogênio/Avermelhada,
ao vácuo sem parar lançada/Uma homenagem de Beta a minha amada/E ao amor/Ith de
DurBuk/Linda de tão diferente de nós de tudo e de todos/E a beleza nasceu
quando te vi tão bela ali/Ao meu lado ao lado do frasco onde você guardava/A
minha ígnea alma que você tinha capturado/E sem querer pra sempre aprisionado
pelo amor/Que nos tornou livres, Ith de DurBuk/Ith de DurBuk/Ith do Universo
Inteiro
“Gostei muito. Quer dizer que você vai me amar?”
Era Ith, que captara seus pensamentos, o poema que ele lembrou lá do
futuro, e tudo, e vinha falar com ele, assim em pensamento, pois ele agora não
tinha ouvido, ele era uma alma presa dentro de uma espécie de bola de cristal
que era parte do equipamento do cientista deste planeta chamado DurBuk em
órbita de Beta da constelação de Lyra e que se chamava Ith, e que o tinha salvo
sem querer, sem saber direito o que estava fazendo, por uma estranha
coincidência, quando ele ligou o transbudificador na Terra e depois a máquina
explodiu ele foi arremessado num espaço interdimensional, e Ith (que não é nem
masculino nem feminina e tem os dois sexos por isso será chamado éle em vez de
ele ela e será chamade bele em vez de bela belo etc.) estava testando um
polarizador interdimensional que por algum desconhecido acidente da ciência
capturou nesse instante a alma de Morioni e encerrou-a na esfera de cristal.
Capítulo 30
Gostaria que o Rico tivesse ido ver o filme na casa dela, como ela tinha
lhe pedido, e ele prometera que iria, e faltara. Agora a coisa estava assim.
Só gostava de chamá-lo de Rico porque era a única que o chamava desse
jeito. Mas isso pra ele não fazia diferença. Ela perguntava: Rico, Riquinho,
você me ama, você ama a sua Cirilinha?, e ele ficava calado com aquela cara de
mau, fazia aquela sua cara de pau, aí pedia pra ela ligar o som, mandava ela
ligar o som, e ia dando ordens, apaga a luz, acende o abajur, tira a roupa,
não, troca esse disco, ela gostava tanto de ouvir Roberto Carlos, mas ele só
queria que ela ligasse em rádio que tocasse rock, uma grossura, como fazer amor
com um monte de troglodita gritando palavrão, fazendo voz cavernosa?, ele mandava
tudo, agora deita aqui, agora pega aqui, faz isso, faz aquilo, isso, mais, ali,
agora assim, sim, Cirila, eu te amo.
O Frederico tinha um jeito medroso e arrependido de dizer eu te amo que
ficava parecendo que ele estava dizendo: eu temo.
Isso era chato.
Depois ele logo queria ir embora. E o pior era que ele achava que ela era
burra, confundia sensibilidade (verdadeira, que desconhecia) com burrice, burro
era ele, ela tinha certeza. Mas não importa, eu te amo mesmo assim...
Comprou a fita especialmente pra eles assistirem juntos, ela gostava
tanto de física e de filmes românticos, e estava tudo ali: A Teoria do Amor, em inglês IQ.
Era uma fantasia em que Einstein ajudava um jovem e humilde mecânico a namorar
sua sobrinha, inventando que ele (o jovem) era um gênio da física, envolvendo
na farsa até o presidente.
Uma delícia. Fez pizza, canapés, pipoca, refresco. Ele não veio. Depois
iria ligar pra querer alguma coisa e quando ela cobrasse o furo ele ia dizer
puxa a vida esqueci desculpe tá.
Ele mentia, quando dizia que achava aquilo tudo uma besteira. Ele gostava
era dela. Ele não a amava. Se a amasse ele iria se derreter todo com os filmes
de amor, as pizzas, os canapés, as pipocas, os refrescos, os sorvetes... bem, o
amor e a mulher certa e a conjugalidade (especialmente a monogâmica) engordam
um homem, e o Frederico era bem charmoso assim magricelinho. Mas de que
adiantava se ele estava escapulindo por entre seus dedos, e ela percebia tão
bem e não conseguia descobrir um jeito de fazê-lo ficar?
“Idiotinha”, ele costumava falar para ela como se fosse um carinho, tolo,
pensando que ela gostava, e ela fingia que gostava pra agradar.
“E você pensa que não é...”
Pisava em ovos, não sabia o que fazer. O que ela queria era casar com
ele, fazer faculdade de física, arrumar emprego de professora, ficar grávida
dele, entrar de licença, três vezes, três nenens iam ser bem maneiros pra eles
dois.
Estava quase chorando. Bobona. Gostar de quem não gosta de mim.
Ele se achava o supra-sumo da inteligência só porque lia seus poetas e
romancistas, meu Deus, todo mundo lia os tais escritores, pura diversão, o que
ele pensava?!
Tentou induzi-lo à ciência, ele disse que nunca tinha entendido nada
daquilo na escola, que era absolutamente por fora de matemática.
Ela brincou que Einstein também não gostava de matemática, ele não
acreditou, ele não acreditava em nada que ela lhe dizia!
Ele é um tesão. Ela não sabia bem por quê. A química, a psicologia, a
teoria do caos, Freud, a história, Engels, até o piroca do Nietzsche de quem o
Rico tanto gostava, todos podiam explicar muito bem o que ia dela pra ele.
Mas quem explicaria um homem assim dividido, se escondendo e se dando pra
ela, ao mesmo tempo, amando amar ou amando o amor e sem querer amar a mulher
que o ama, estando ali e alhures, nunca inteiro, dela, dela, dela e só?
Cirila chorou pra caramba.
Assistiu ao filme. Chorou de novo. Comeu a pizza e o resto, um pouco de
tudo, se se distraísse ela comeria tudo, mas não comeu, eu?, eu não vou chorar,
eu vou é cantar, pois a vida continua...
Lembrou-se do famoso efeito borboleta da física quântica e também da
ciência do caos; a batida das asas de uma borboleta no Brasil pode provocar um
furacão na China, e vice-versa. Relacionou este dado (ou teoria) com a
complexidade dos envolvimentos sentimentais de uma pessoa, uma espécie de carma
fractal: cada pequena coisa que você nem percebe que pensa e sente, cada
detalhe de seu psiquismo e de seu correlato comportamento social e desempenho
semiótico pode gerar cataclismas, tufões, vulcões, maremotos, titanics,
nevascas, borrascas ou dias lindos de sol, brisas amenas, manhãs de passeios no
parque, arco-íris, nuvens rosadas, tardes plácidas, meigas mocidades, matinês,
mão dadas, pipocas compartilhadas, deliciosos picnics de sanduíches e saias levantadas
pelo vento e/ou pelo tesão e a mão boba de seu lindo cavalheiro, que vem pra
lhe buscar, basta você querer acreditar de todo o coração, a coroação do
sentimento, o evento da fusão de dois momentos, é preciso desligar o
investimento falido, e, devido ao efeito borboleta, provocar a meta da beta e
do que vem depois.
Capítulo 31
Frederico vê Nadine, se esconde, meio que se esconde atrás de uma árvore,
mesmo ele sendo magro dá pra ver seus membros, seu nariz, seu cabelo, seus óculos,
suas orelhas, seus olhos espionando Nadine de longe, andando devagar ao lado de
um cara desconhecido, quem diabo é esse cara, mas ela parece que não percebe
que ele olha pra ela escondido e totalmente visível atrás de uma árvore, ele
meio que vislumbra um sorriso que brinca em seus lábios e não chega a se
esboçar, ela é a mulher secreta, ou pode ser que ele estivesse apenas criando
coisas sem parar em cima da ideia que ele mesmo faz e faz mesmo fabrica de
Nadine, um pedaço de nuvem, um lugar do tempo-espaço, uma nuvem de partículas
que são elas mesmas meras probabilidades ou um sentimento difuso aglutinado em
torno de uma certeza obtusa.
Ontem ele a viu passar do lado da Lua, as mãos secretamente se roçando,
se tocando, ele ficou louco de ciúme. Hoje ela passa do lado desse palhaço
emplumado careta nojento se Frederico fosse um cara violento ele iria surrar
sem parar esse paspalho até que todas as certezas se desamarrassem em sua
máscara de macho latino latindo na latrina.
Calma, Frederico Fonte Jorrante, Frederico Fonte Estuante, Frederico
Fonte Esporrante, não fique assim ignorante, louco, por causa de uma mulher que
não te quer, e que é o grande amor de seu melhor amigo, e que desfez dos dois
em troca de uma lambisgóia magricela, e agora passeia toda lambida do lado
desse mauricinho cu de merda, desse filhinho da puta direita, desse asqueroso
leite de rosas e alma de capacho de terceiro tudo de usar mulher de molhar a
mão de chover no molhado de apoiar o errado.
Eles passam e eles podem ser só colegas conhecidos ou nem nada, e
Frederico vê que está sendo ridículo, jogando tanta frustração naquele boneco,
macaco, cachorrinho de madame, esparro de porra, capacho de burguês, filho de
milico, contradições é o nome falso desse tipo de homem concreto que se
locupleta e vota na direita e respeita tudo que é podre e viciado, e bate em
viado, apedreja puta, crucifica os cristos, sacaneia os pobres, debocha dos
fracos, mas se agacha e dá todos os rabos do corpo e da alma pra tudo que for
lama pintada de dourado, elite da elite da elite da elite da elite da elite da
elite da merda.
Calma, meu amigo. Ela te trai com mulher, não é com esse escroto de
academia. Calma, ela te odeia, odeia todos os homens por causa de vermes como
esse aí, mas com ele ela anda confiante e elegante, a mim e a meus amigos ela
chama de um monte de nomes, não quer me ver nem pintado.
Calma. Essa menina é uma pessoinha igual às outras, se bem que
normalmente totalmente diferente. Ela vai te ver amanhã e vai vir conversar com
você muito educada, vai perguntar pelo teu amigo e pela tua garota, e o que
você vai responder? Vai ter a coragem de dizer vem cá mulher, olha só pra mim,
porque eu estou doido de amor paixão tesão carinho só por você, vai?
Frederico anda pelas ruas feito um louco sem olhar pràs pessoas nem pra
nada ele só pensa em Nadine 40 ou 70 % da alma o resto ele tem uma revolta
incomensurável tudo acaba em pizza tudo acaba em nada tanta corrupção tanta
coisa errada tanto filho da puta e tudo fica assim parado essa perfumaria
enquanto há Morionis e outros monstros bem mais reais bem mais palpáveis
sugando a alma e a força do mundo dos homens das coisas legais de tudo que é
bom, e parece que ninguém quer ver isso, vai votar em branco, delegar poderes,
recusar o poder, fazer como os macacos anedóticos, tampar os olhos, os ouvidos
e a boca, colocar uma tarja no pensar, fazer como os cavalos e aceitar bitolas
e arreios e freios e celas e não perceber que os outros cavalos são comidos e
os outros são atrelados a fardos pesados demais e que são todos considerados
alimárias mesmo os cavalos de corrida que ganham um pouco mais de alfafa e
fingem que fingem que gostam de gostar de ser uma besta de carga em um mundo
que podia ser o mais lindo dos mundos se não fosse a mesquinharia asquerosa de
alguns ratos porcos gordos e grandes que se dizem homens.
No outro dia ela veio falar com ele, mesmo, toda educada. Ele sentiu uma
vontade danada de esmagar os lábios dela nos seus lábios, mas calou a boca e a
fome da boca, não obstante falar tudo que pensava, menos que a amava, e que a
viu passeando com x e com y, e tal, isso ele fingiu que calou e não sabia, ela
sabia e ria sem rir, lábios parados, ele falou foi da sua revolta toda, desse
ódio sem limite por tudo que há de errado e de escroto neste mundo.
Aí ela se permitiu rir-se deliciada, como se todo lixo punk fosse maná, e
resolveu ficar bondosa, como se banana de dinamite fosse banana, um sentimento
de proteção maternal.
“Você precisa ver um filme que eu vi outro dia de madrugada na tv e que
adorei demais, e que me lembrou muito de você. Chama-se Coração Selvagem, do diretor de cinema norte-americano David
Lynch.”
Ele não respondeu, sentiu mais raiva dela pela pretensão, e a raiva o fez
selvagem o suficiente pra cantar bonito pra ela:
“Love me tender/Love me
true/All my dreams for feel/For my darling/I love you/And I always will.”
Que era a declaração de amor do herói do filme prà mocinha, e ela quando
ouviu aquilo se mandou correndo sem sequer se despedir.
Capítulo 32
Neste frio do espaço interplanetário intermediário/Sigo procurando o
caminho que siga/A rota original da trajetória para a glória/E a história e o
resto deixo pra trás/Por parsecs e parsecs de incerteza/Tenho a beleza de que
sigo o sim/Pois as paralelas correm todas desiguais umas muito mais que as
outras e as outras/Me trazendo para sempre para perto de você/Que
sabe/quer/faz/acontece/merece/dá tudo que tem que ser/Ith de DurBuk Ith de
DurBuk/Ith do Universo Inteiro
“Lucas, eu sinto que você tem andado triste.”
Brilhos no seu invólucro, cintilações sensíveis, comunicação direta sem
barreiras linguísticas, se bem que éle estivesse lhe ensinando durBukiano
básico.
“O que está havendo? Não gosta de DurBuk? Nossa ligação não lhe
safisfaz?”
“Minha querida Ith, DurBuk me parece o próprio paraíso, e você é o amor
de minha vida.”
“Então o que há?”
“Eu tenho uma missão, na Terra. E o feliz incidente que me trouxe pra cá,
se me deu a glória de te conhecer, também interrompeu um trabalho de suma
importância.”
“Você não pode deixar tudo isso pra trás? Estamos aprendendo tanto um com
o outro!”
Lucas olhou a cidade mrindjordiana pela janela oval: viu alguns
habitantes hermafroditas, brilhos amarelos encapsulados, boiando um pouco acima
do chão cheio de matéria orgânica verde clara floculada. Viu o pôr-de-sol
alaranjado, as luas cobreadas despontando no céu, mil tons e cores cambiantes,
os prédios circulares em cima e afunildados embaixo da cor do ouro refulgindo
aos sóis e às luas, viu os animais enormes, de vinte patas e longos pelos pelo
corpo pleno, dóceis, querendo agradar, sorrindo felizes, para seus pequenos
amigos racionais da raça de Ith.
“Eu tenho que voltar para a Terra. Tenho que cumprir minha missão. Depois
eu poderei retornar para cá. Para você.”
“E como você vai fazer isso?!”
“Não sei ainda. Todavia eu darei um jeito.”
Ith sabia que podia confiar em seu amor, que ele era arrojado e heróico.
“Vou fabricar um receptáculo robô semelhante a nós, para receber você da
próxima vez.”
“Você é linde e inteligente.”
“Eu te amo.”
“Eu te amo.”
“Vou tentar saber de você.”
“Sei que serei Lyáios Theóphoros quando chegar a meu planeta.”
“Volte logo, Lucas.”
“Voltarei logo para você, Ith.”
E (artigo definido singular hermafrodita) apaixonade habitante de DurBuk
disse: “Até logo” para e viajante terrestre.
“Até sempre Ith.”
“Até sempre Lucas.”
E Ith reverteu os controles de seu polarizador, enviando Morioni de volta
ao seu seio materno, à sua amada e amante Terra.
Morioni fechou olhos transcendentais e esperou pelo raio, e lá se foi
pelos interstícios dos tempos e dos espaços, em direção ao espaço e tempo de
onde saíra.
Havia um risco de voltar exatamente ao instante e ao ponto de partida, o
que seria muito complicado, pois ele se veria de novo às voltas com a invasão
de seu laboratório pela polícia. Havia ainda o problema de não se saber ao
certo o que iria acontecer porque a sua captação pelo polarizador de Ith fora
um acidente e nunca nada assim tinha sido tentado antes nem por ele nem por éle
e não se podia ter certeza do que realmente aconteceria na inversão.
E havia um problema que eles tinham desconsiderado: quando ele se foi da
Terra para DurBuk havia dois pólos, um emissor, representado pelo
transbudificador anímico, e outro receptor, o polarizador interdimensional de
Ith, em DurBuk.
Agora só havia o pólo emissor, pois na Terra o transbudificador Morioni
fora destruído a seu próprio pedido. Se voltasse no momento em que ele
funcionara entraria no paradoxo de estar duas vezes exatamente no mesmo
espaço-tempo como dois seres distintos, o que seria naturalmente rejeitado pela
rede energética do universo (ou não?).
Se caísse em qualquer ponto fora desse alvo emissor cairia num
espaço-tempo sem receptor, o que significaria que não teria meios de se
materializar (ou teria?). Ele teria que se substancializar na sua
integralidade, o que Ith tinha recolhido em sua esfera de cristal era a
totalidade da energia cósmica de Morioni, incluindo o que se chama popularmente
por corpo e alma, já que tudo dele tinha se transformado em energia
transdimensional e ali chegara.
Agora o problema era: que meio ou instrumento ou aparelho poderia
reconverter Morioni energético em forma humana se ele só podia voltar onde e
quando não houvesse mais nenhum transbudificador? Foi um lance de dados.
E o que aconteceu foi que ele voltou para a terra com indeterminação
espácio-temporal total, em errância, como uma imagem que pula em várias
direções, uma espécie de efeito ricochete que fez com que ele caísse milhares
de vezes no passado e outras tantas no futuro em ziguezague, cada vez se
aproximando mais de seu próprio presente, como em um cálculo infinitesimal.
Morioni foi pedra na recente criação da Terra, foi homulher hermafrodita
em 419.563.851 d.C., foi homossáurio de dez metros nos tempos desconhecidos,
foi uma mulherzinha careca e baixa em 10000 na cidade do Rio de Janeiro do
futuro, foi pequeno funcionário do Império Marciano, terrestre feitor de
terrestres, foi um jovem gordo e mau chamado Guiárdnik que perseguia
subversivos naturistas em uma terra superindustrializada e paranóica, foi o
cavalo Branco de Napoleão, foi o neto de Frederico, foi o pai de Zeca dOlivares
e...
Nasceu em seu próprio tempo, pobre, preto, um bebê que no futuro seria um
homem inteligente, esperto, alto e forte, que teria cerca de vinte anos quando
da ida de Morioni para DurBuk, que estaria totalmente aparelhado para cumprir
sua meta na mesma conjuntura dimensional, mas que nasceria e cresceria na total
ignorância e no mais completo esquecimento de quem ele realmente era, de tudo o
que acontecera e de qual era sua real incumbência, um rapaz chamado Laio
Teofrasto, apaixonado por uma moça rica de nome Sofia, e que trabalhava como
boy no centro e morava com a tia na Vila das Famílias, e que precisava
urgentemente lembrar de tudo e começar a realizar o seu verdadeiro trabalho.
Capítulo 33
“Eu não quero ouvir nem mais uma palavra sobre esses teus amigos pirados
ou sobre toda essa invencionice de Morioni. Isso por acaso é um livro que você
está escrevendo?”
“Talvez.”
“Não tem nada mais ridículo do que homem fazendo essa cara de enigma da
esfinge. Parece coisa de viado.”
“Que é isso Cirila?!”
“E por favor, vê se pára de falar naquela sapatão! Você por acaso tá afim
dela? Você tá querendo me sacanear?”
Frederico não sabia mais o que responder para sua namorada. Ela estava
mesquinha, vulgar, falando assim, fazendo cobranças.
Ah, sim, ele não fora ao encontro marcado com ela, não assistira à tal
fita como ela queria e não participara do tal ritual ou sabá ou o que fosse lá
dela, que tinha marcado, e ele prometera que iria, com certeza. Aí ela veio uma
fera falar com ele, cobrar. E ele explicou, contou tudo o que acontecera na
noite em que deveria ter ido encontrá-la, o e-mail de Ezequiel, a saída com
Ismênio para tentar salvá-lo, o ataque ao esconderijo do Dr. Loucus da Silva
etc.
E a tudo isso ela respondia assim, com tantas pedras na mão.
Para acalmá-la ele lhe deu cerveja, deitou com ela, fez cafuné na sua
cabeça, pediu pra ela ficar quietinha e começar a ronronar...
Olhavam-se nos olhos, para bater de novo, e agora acontecia que nenhum
deles sentia mais o que sentia quando a coisa acontecia, olhos, sexos, eles já
não se molhavam mais.
(Seria interessante de contar tudo o que se passou entre os dois nesta
noite e nas outras duas. Mas as histórias de amor são pessoais e
intransferíveis, e ao mesmo tempo são um transferidor que nos faz graus de um
círculo infinito caos do mesmo mito espatifado e incólume em Áion, o amor é o
maior transbudificador que já foi inventado, eles dois tiveram tanto que
aprender e que se transmutar só para depois voltar a aprender que já não sabiam
nada e que nada mais estava no lugar e que nunca nada fica como está e que o
homem e a mulher são dois planetas em dois universos diferentes sim mas que
isso é que é bom e ruim na gente e nas coisas do mundo porque é preciso ficar
entrando no buraco negro e saindo lá no outro universo em uma supernova e
voltando a entrar e sair pelo buraco negro e pela supernova de um universo pro
outro sempre sem parar até que o tempo faça a curva e a luz também faça uma
curva e volte e as paralelas se encontrem porque e Frederico e Cirila sem nem
sair do Rio sabiam disso assim tão bem como se tivessem viajado por séculos e
milênios-luz as paralelas parecem paradas mas correm sem parar em velocidades
desiguais e se encontram, é por isso que a luz-tempo faz a curva e volta e
revolta sem parar como a fita desta máquina ou a fita que gravou a
música-instante-sensação-tempo-vida e que pode ser ouvida de novo a fita vai
pra trás e vai prà frente é e é por isso mesmo que a gente é gente e eles não
podiam mais deixar de amar e é por isso que nós estamos (homens mulheres
hermafroditas & os outros todos) cada um em um único e próprio e seu
pessoal intransferível universo e mesmo assim podemos nos ver nos tocar nos comunicar
nos entender e nos amar)
Capítulo 34
E Lyáios Theóphoros se viu sozinho, no alto do mesmo morro onde conhecera
Vulcão Lunático (tudo estava igual, mas a cabana do bruxo havia sumido).
Ele lembrava de tudo: sua vida como Morioni, as perseguições, os anos em
que viveu sendo Pantoja, o ataque ao laboratório, a fuga em vôo cego, o
transbudificador explodindo enquanto ele era teletransportado para DurBuk,
planeta de Beta Lyrae, onde conhecera Ith, e todo o tempo que passaram juntos,
aprendendo tanto um com o outro.
Todavia ele tinha que voltar.
E voltara.
Sempre amaria Ith, e também DurBuk, seu lindo lar.
No entanto agora ele tinha todo um futuro para construir.
Agora ele era Lyáios Theóphoros e sabia exatamente o que fazer, e como.
Desta vez teria sucesso.
E Lyáios saiu caminhando com passos apressados, olhando para os lados,
pela cidade enlouquecida, que era meta sua transmutar, experimentar, estudar.
Seus cabelos cumpridos pixaim, sem penteado definido, sua silhueta nobre,
suas roupas caras, coloridas, longas e impressionantes, seus olhos
autoritários, vasculhando, procurando,
por onde quer que fosse, onde quer que estivesse, o quê ou quem quer que.
Sob os braços levava muitos papéis enrolados, planos, mapas do tempo,
estudos incompletos, preciosas anotações dos que o precederam.
“E volto aqui de novo persistente.”
Pelas ruas pessoas passavam apressadas, como ele, mas sem desviar sua
atenção reta de sua meta, um monte de zumbis, de robôs humanos, seus olhos
opacos chispando raios de raiva congelada, frustração e outras mágoas, muitos
deles falando sozinhos, todos tão fracos.
Mutantes canibais corriam em grupos predadores no lusco-fusco da cidade
abandonada que anoitecia, enquanto que homens de bem fugiam apavorados; às
vezes, alguns deles caíam nas garras dos grupos que caçavam.
Aves de rapina gigantescas devoravam o cimento das altas torres com seus
bicos afiados, e muitos prédios caíam, como castelos de cartas, ou igual a
castelos de areia, que de areia realmente eram, e sabiam todos que tudo não
passava de grãos da mesma areia, ampulhetas do tempo, castelos de gelo, de
lama, de sonhos, de pretextos.
Capítulo 35
Frederico não saía de casa havia dias e mais dias. Faltou às provas da
faculdade, devia ter ficado reprovado em tudo. E daí? Que importância isso
tinha?
Cirila viera vê-lo várias vezes. Na primeira eles transaram. Na segunda,
conversaram. E na terceira vez brigaram. Ele manifestou bem claras todas as
dúvidas e incertezas do relacionamento deles dois, e ela falou que não queria
mais nada com ele, que estava de saco cheio, chega, chega, chega, entendeu?! Eu
não sou capacho! Não quero mais nada com você!, e saiu batendo a porta,
deixando um enorme alívio em seu lugar.
E os mosqueteiros?
Cada um percorria seu caminho, sem olhar pros lados, ele tinha certeza. E
não era certo assim? Ele não sabia de mais nada, nem queria saber.
Não conseguia pensar, escrever, ler, estudar, ver tv, ouvir música, sair,
conversar, namorar, trepar, comer, dormir, sonhar... nada.
Tudo agora se resumia a uma única palavra sem fim: Nadine.
Foi chamado à sala, visita de Ismênio.
“Que alegria te ver. Tudo ok?”
“Isso é alegria?! Eu não quero te ver triste, então.”
A energia de Ismênio era visível, envolvente.
“Você tá namorando alguém?”
“Você sabe que eu vivo envolvido com Marcele. Mas é tão complicado, ela
mais velha, casada, branca...”
“Se vocês se amam, ela bem que podia abandonar aquele basbaque.”
“Há que ser leve, e flutuar neste mar de basbaquice, meu caro. E a
Cirila?”
“Acabamos.”
“Sei. E a Nadine?”
“Ainda a vi duas vezes. Em uma não nos falamos, na outra voltamos a
conversar, muito bem até, parecíamos camaradas.”
“E não são?”
“Você sabe que isso é impossível. Esqueceu da Lua? E do czar?”
“Este, eu posso lhe garantir, não quer mais saber dela. Eu fui vê-lo,
antes de vir pra cá, e ele falou que ela era isso e mais aquilo, que ele andava
meio piroca das ideias por causa da intoxicação, da crise de impregnação ou
outra coisa qualquer.”
Frederico pegou uma bandeja de sanduíches de salaminho com alface e uma
jarra de refresco de maracujá, ofereceu ao outro, e começou a comer com
verdadeira fúria.
“Quer dizer então que ele esqueceu a Nadine?”
Ismênio riu, tomou um gole, fez suspense.
“É claro. Você conhece o cara. É um volúvel. He is as false as the human being.”
“Mudando de assunto, como está o senhor Zeca dOlivares?”
“Em casa. Se recuperando.”
“E o que aconteceu com Morioni, afinal?”
“Qual versão você deseja?”
“Quantas existem.”
“Bem, há várias, só eu sei de três.”
“Quero conhecê-las.”
“A minha: fugiu, fazendo antes um monte de explosões e fumaça, pra
acobertar a fuga. A oficial, da polícia e dos jornais: ele morreu com a
explosão da máquina que ele mesmo chamava de transmutador anímico, eu acho,
explosão essa que o teria desintegrado. A de Ezequiel: Morioni conseguiu com
essa máquina produzir a própria transmigração para o corpo de um jovem
industrial, homem misterioso e rico, preto assim como eu, de nome Laio
Teodoro.”
“Que absurdo!”
“Mas ele está melhorzinho: decidiu não tentar desmascarar o tal Dr. Laio,
pois diz que agora o Morioni se purificou e usará a sua inteligência doravante
para o bem da humanidade.”
“Um verdadeiro happy end!”
“Ele diz que a coisa não acaba aí.”
Riram, contentes.
“E José de Alencar?”
“Está cada vez mais apaixonado por Iracema.”
“Mas ele não ia deixá-la?”
“Pensou que ia, mas na hora h a paixão falou mais alto. Diz ele que o
amor purifica tudo.”
“Você e a Marcele...”
“É diferente.”
“Por quê?”
“Ela é casada, tem filho, o marido dela é um arquiteto bem-sucedido,
cheio do dinheiro, ela é branca...”
“E daí? Qual o problema? Racismo? Seu? Dela? Se ela te ama, se você a
ama, porra! Vocês sabiam que já existe divórcio no Brasil?”
“Tá bom, muito obrigado pelos conselhos, doutor Frederico Guilherme.”
“De nada, doutor Ismais.”
“Você se lembra disso!”
“Eu nunca esqueço. E você ainda se recorda da Claudete Grant?”
“A nossa aposta! Quem ganhou?”
“Você sabe que foi você.”
“Ah, é, que bom, então eu lembrei certo. Você entende, a minha memória é
randômica.”
Depois que ele foi embora, Frederico se deitou no quarto e ficou ouvindo
Maria Bethânia e pensando...
“Fred, tem uma menina aí querendo falar com você.”
“Menina, que menina, mãe?”
Era Nadine.
Seus olhos brilhavam, seus dentes brilhavam, seus brincos brilhavam, ela
toda brilhava sem parar.
“Nadine!”
“Frederico.”
Ficaram se olhando, um tempão. Aí ela segurou a mão dele.
“Mas como?!”
“Sei lá!”
E os dois se beijaram com amor.
“E a Lua?”, perguntou Frederico, levemente embriagado de ventura.
“Agora eu quero o Sol”, Nadine respondeu.
E os dois saíram de mãos dadas e foram para a praia para ver o Sol
nascer.